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O vizinho

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O interfone interrompe nosso café da manhã. É o porteiro, comunicando com voz grave que o vizinho do 42 faleceu de madrugada. Morava dois apartamentos acima do nosso.

Nunca soube o nome do vizinho. Apenas imagino sua idade. Nem consigo lembrar de seu rosto, mal definido em algum encontro no elevador ou na garagem. Só guardei que estava sempre de camisa meio aberta e tinha um bigode branco.

Estamos em Santos, no ano da graça de 2019, e há muito as cidades decidiram que vizinhos não devem se conhecer. No entanto, algo me comove. Talvez saber que, no mesmo espaço em que ocupamos neste momento no mundo, só algumas dezenas de metros acima, o drama de um homem se desfaz sem que essa notícia cause maior estremecimento.

Minha mulher conta que há meses ele andava doente, pouco era visto nos corredores do prédio. Era sozinho, não sei se viúvo ou separado. Que a vida tenha lhe poupado a consciência da própria decadência e suas humilhações. Alguém na mesa diz que ele tinha um cachorro chato. Que azar do cachorro, se ainda fosse de fazer festinha, haveria quem quisesse ficar com ele.

Continuamos a tomar o café. Como alguns biscoitos e demos risadas de algumas bobagens que os meninos dizem. Acreditem que isso é algo muito moderno: há 50 anos, receber tal notícia era motivo para encerrar a refeição, guardar silêncio, e ainda havia a proibição de ouvir música e rir alto. Em respeito ao falecido. Nunca entendi isso: sempre achei que o falecido ia gostar de saber que as risadas e as canções e os amores continuariam pela vida. Talvez desse tudo por um último cafezinho rodeado pela família com uma rosca daquelas que em só em São José continuam a existir.

Ernani. Era esse seu nome, me ocorreu agora. Pouca gente se chama Ernani hoje em dia e resolve partir num dia lindo desse. Meu bom Ernani, pois saiba que honraremos a vida: tomaremos sol, sorvete e observaremos uns meninos magrelos e de cabeça grande jogando bola, a bola ainda maior que suas cabeças. E mesmo não o conhecendo, fizemos à mesa um brinde de café em sua homenagem. Alguns brindaram com suco, perdoe as crianças, elas ainda não acham graça em café.

O relógio da sala bate dez horas. Danado. Viu passar pela vida tanta gente e bem agora resolve bater alto, como se caçoasse da fragilidade dos homens. Pois saiba que não vou dar corda até o fim das férias, que é pra ele aprender a ser mais respeitador.

Mundo estranho este que a gente vem construindo, onde desconhecemos o nome e o rosto de pessoas que vivem encostados na gente. Não há nada de original nesse pensamento, nem julgo coisa alguma, nada de concluir que tudo está perdido, que a humanidade não deu certo, só acho esquisito mesmo, só isso.

No entanto, há água abundante, basta abrir a torneira e vê-la sair jorrando, o ar-condicionado aplaca janeiro, a geladeira deixa o leite, o suco e a melancia gelados, veja do que é capaz a humanidade. E assim lavo o rosto e afasto a notícia da morte, a sombra da morte, e vou à praia com meus queridos.

 

 

 

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