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Onde mora o sabiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Cinco da manhã, o dia nem nasceu e um sabiá desandou a cantar nas redondezas.

Pronto. Cronista deve ter fixação por sabiá. Vira e mexe, catapimba: lá vem o bicho na história. Por que sabiá e não tico-tico? Ou gambá, muriçoca? Discriminação pura. Fora que vira tudo pastiche do velho Braga. É muito descaramento. Mas o que eu vou fazer se na verdade um sabiá desandou a cantar, ué?

Aliás, nem é um, são dois. Um mais longe e o outro, bem debaixo da janela. Este está caprichando: põe a guela pra fora, entusiasmadíssimo. Li em algum lugar que os sabiás – como todos os pássaros – cantam para atrair as fêmeas. Bom, então esses devem estar de olho na Malu Mader da raça. Na Isis Valverde com penas. Cantam com vontade e o vão entre os edifícios amplifica e fazem ecoar sua música.

Penso em meu pai. Como gostava desse canto. Como me ensinou a gostar. Houve até o dia em que não gostou. E disse no café da manhã, olhando pela janela: “A vida inteira esse canto me alegrou. Hoje, quando o escuto, me dá tristeza. Porque sei que é hora de levantar, ir para o trabalho e não quero mais, cansei, não quero, ele não me anima mais. É. Vou me aposentar.” E assim o fez. Simples. Um passarinho definiu a aposentadoria do meu pai.

Ouço o mesmo canto e não sinto tristeza. É um bom sinal. Não me faz lembrar de trabalho, mas do meu pai. Eu estava em Paris quando recebi pelo telefone a notícia de que ele havia sofrido um derrame irreversível. A caminho do hotel, tentando um voo urgente, trombando com a mais absoluta falta de sentido, uma passagem nossa irrompeu na lembrança.

Foi a de um fim de tarde na praia. Caminhamos horas pela areia (talvez minutos, a memória da gente é muito exagerada), até escurecer. Ele explicando para um menino de 12 anos a letra de um samba de Noel. O humor, as metáforas e os siris saindo das tocas. Minha primeira lição de poesia. Estou devendo algo assim sublime para os filhos.

Viagens de avião têm todas algo de absurdo. Mas nunca como aquela. Só havia disponibilidade na classe executiva. Como se 32 canais de áudio ou 4 cardápios a escolher fizessem alguma diferença. Meu pai ainda estaria vivo? Ele só me esperou chegar para me sentir, sorrir e partir.

Lá fora, o canto parou. A manhã chega em silêncio. E este texto, como a vida, que era para ser só alegre. Às vezes dói, às vezes não dói, mas sempre passa. Fica só um vazio. Um estranho vazio onde mora o sabiá.

 

 

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