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Os dias passam

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Os dias passam para o macumbeiro, como passam para os alpinistas. Para o assassino na prisão eles passam (lentos de desanimar). Mesmo os dias intermináveis no fim conhecem a noite, chega a hora de virarem ontem e a insistência em durar perde o sentido. Ou amanhecem já com a intenção de escurecer.

Nos relógios digitais, os dias ultrapassam os da folhinha com mais determinação. Um dia para a mosca é precioso, com sorte ela irá conhecer apenas 28 dos nossos. Os dias das ampulhetas nem existem mais. Já o astronauta conta o tempo por medidas que enlouqueceriam outro homem, mas que as pedras das trincheiras das velhas batalhas, cobertas pelo mato e por ele perdoadas, entenderiam perfeitamente.
Tanto que a gente ouve que só o tempo cura. Nesse caso, os dias deveriam passar mais rápido e não é o caso. As noites de insônia vão demorar imensamente. Deve-se dar tempo ao tempo, e essa é uma lei que jamais pediu nossa opinião, impõe-se e ai de quem contradizê-la, afogado que se debate na correnteza, presa que tenta socar a bochecha do tigre.
O tempo da espera passa, mais lentamente que o do reencontro.
Os dias passam menos nos cigarros e bancos de praça. Empacam num café coado na hora. Há uma grande torcida para o dia passar dos que trabalham sem esperança. Em certas filas, o dia leva 32 horas para passar e a repartição fecha às 16. Os ponteiros dos relógios acham que estão no controle, mas só recebem ordens superiores do Tempo. Se tentam alguma rebelião, perdem-se, marcam 4 quando são 6, até que seu mecanismo seja desativado e não há esmero ou feitiço que resolva.
Os dias passam, não se aflija tanto. De nada serve levantar correndo, escovar os dentes enquanto veste as meias, maldizer o farol vermelho. Não colabore com a afobação. Até para as reticências os dias passam e talvez essa seja sua única certeza. Os dias em 1988 (testemunhas podem atestar) passaram muito mais rápido que nos anos anteriores e esse virou o padrão.
Nove mil, setecentos e vinte e dois dias se passaram desde que você viu a água da primavera descer das montanhas e correr nas pedras dos Alpes. Mas aí um dia você volta e repara que o dia é o mesmo daquele, a água canta do mesmo jeito, o sol aquece pouco tal e qual, e nem parece que tudo passou tanto.
Os dias passam. Aos poucos, aos muitos. Passam nos cabelos embranquecidos e nas peles cansadas, nas lembranças esmaecidas e nos olhos que já não se espantam. Passam nos sustos que a gente leva quando vê o tamanho dos que há pouco eram crianças. Até no sorvete que derrete mais rápido do que nossa destreza em lamber.
Acontece até de alguns dias reacontecerem – se isso não acontece mais, desistem e são guardados em gavetas pesadas de um fichário numa sala escura com uma placa de “Passado”.
E quando a gente vai ver, tem mais dia ontem que dia amanhã.

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