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Os maiores suicidas do mundo são russos

em Educação e Comportamento/Mundo/News & Trends por

O suicídio parece uma tragédia essencialmente pessoal: uma pessoa lutando contra demônios até ser derrotada. Mas, em alguns casos, também pode ser considerado uma tragédia nacional.

De acordo com um estudo publicado recentemente, a ex-União Soviética lidera o mundo no quesito suicídio, com cerca de 27,8 suicídios por 100.000 pessoas. Em comparação, cerca de 38.000 americanos tiram a própria vida por ano, ou 12,4 por 100.000 pessoas, segundo dados recentes do Centro de Controle e Prevenção de Doenças.

Igualmente surpreendente é a diferença de gênero nas taxas de suicídio nos países pós-soviéticos. Enquanto os homens se suicidam mais do que as mulheres em todo o mundo, o desequilíbrio está cambaleando na ex-União Soviética. Na Lituânia, por exemplo, para cada 100.000 pessoas, 61,3 homens cometem suicídio, enquanto apenas 10,4 mulheres se matam.

Esta não é uma nova tendência na Rússia, pois a taxa de suicídio masculino na Europa Oriental surgiu durante os anos 90 por causa do excesso de drogas e álcool. Dentro dessa realidade, a expectativa de vida nos estados pós-soviéticos seguem padrões semelhantes: homens russos, vivem em média 63 anos e as mulheres, 75. Nos EUA, a expectativa de vida de um homem é de 76 anos e das mulheres, 81.

A diferença de gênero demográfico é gritante nesta parte do mundo. Os homens mais velhos são poucos e vivem distantes entre si, enquanto as senhoras transportam mantimentos e conversam com as amigas nos bancos dos parques. Apesar (ou talvez por causa) de uma cultura em que os direitos das mulheres continuam ficando para trás na maior parte do mundo ocidental, são elas que provaram ser o sexo forte.

“Literalmente todo o seu mundo ficou de cabeça para baixo, socioeconomicamente e psicologicamente”, diz Judy Twigg, professora da Virginia Commonwealth University, que é especializada em saúde e demografia na Rússia. “Não é difícil entender como isso foi incrivelmente perturbador para esta população”.

Quando a União Soviética se dissolveu, os papéis de gênero também se desfez. Um estudo realizado em 2009 chamado “sofrimento social, pós-soviético da Masculinidade”, Arturas Tereškinas, professor de sociologia na Universidade Vytautas Magnus na Lituânia, explicou que o conceito de masculinidade e “heróis da classe trabalhadora”, que foi tão relevante na Soviética, elevou as taxas de desemprego, pois uma nova economia de serviços emergentes exigia habilidades de comunicação. Imagine uma loja da Apple tripulada por bêbados ranzinzas? Isso deixou muitos homens russos sem emprego e sem perspectivas “os tornando cada vez mais marginalizados”.

Em parte, isso aconteceu porque muitos homens soviéticos nunca desenvolveram habilidades necessárias para ter sucesso em uma economia pós-industrial. Sob o domínio do Kremlin, era difícil encontrar confiança, e os homens passaram a maior parte do seu tempo no mesmo trabalho, se comunicando apenas com os mesmos colegas de trabalho. As mulheres, por outro lado, eram mais capazes de cultivar uma densa rede de amigos que podiam confiar no que Twigg se refere como “amigos da mesa de cozinha”. Como isso, suas habilidades de comunicação e de enfrentamento social evoluíram muito mais do que a dos homens.

Um estudo feito em 2003 intitulado “Suicídio e morte prematura ou por que os homens são tão vulneráveis”, identificou que a não adaptação aos enfrentamentos sociais foram a maior razão para os homens se suicidarem. O estudo descobriu que ao ser confrontado com as mudanças sociais, os homens pós-soviéticos não estavam dispostos e eram incapazes de pedir ajuda ou expressar suas emoções. Enquanto isso, as mulheres expressavam sua dor publicamente.

Muitos homens, sofrendo em silêncio, afundou-se na bebida. Outro estudo em 2012 intitulado “A interseção da expectativa de vida e sexo em um estado de transição, no caso, a Rússia” descobriu que os homens da ex-União Soviética sentiam vergonha com a queda da URSS e abusavam do álcool e da violência, em vez de expor suas vulnerabilidades.

Na cultura popular, é comum zombar dos russos os chamando de “inúteis”, pois a maioria das vezes estão bêbados demais para fazer qualquer coisa. E a mídia, muitas vezes retratam “a mulher como a mais forte”, disse Twigg à Newsweek. A OMS afirma que os europeus orientais consomem 14,5 litros de álcool puro por ano. Já nos Estados Unidos, o consumo por pessoa é de apenas 9,6 litros por ano.

E o consumo não é apenas pessoal, é político. A Vodka continua sendo uma grande fonte de renda para a região, principalmente para a Rússia. Durante anos, o Kremlin incentivou o consumo de álcool, a fim de trazer mais receita ao governo. “Aqueles que bebem e fumam estão ajudando o estado através da compra destes produtos”, disse o ministro de Finanças da Rússia, Aleksei L. Kudrin, em 2010.

Monika Bonckute, jornalista do jornal lituano Lietuvos Rytas, disse à Newsweek que “beber era uma forma de protesto contra a ditadura”.

Consumir muito álcool tem consequências graves para a saúde pública. Além dos conhecidos impactos na saúde a longo prazo, uma análise de quase 30 anos de literatura médica sobre o assunto concluiu que o alcoolismo aumenta o risco de suicídio. Outro estudo recente, “Fatores de risco no comportamento suicida dos alcoólicos” descobriu que 40 por cento de todos os pacientes que procuraram tratamento para a dependência de álcool relataram pelo menos uma tentativa de suicídio.

E porque o tratamento da saúde mental na Europa Oriental, incluindo – terapia do vício em álcool são até agora abaixo dos padrões globais? A resposta vem do passado, antigamente, sob o domínio soviético e durante a dissolução da URSS, pessoas que lutavam com a depressão ou abuso de substâncias não tinham opções reais na área da saúde mental. “Toda a disciplina da psiquiatria e saúde mental era uma abominação no período soviético”, diz Twigg. Sob o domínio soviético, dissidentes políticos eram muitas vezes jogados em instituições psiquiátricas, onde foram drogados e torturados. “Toda a disciplina foi pervertida ao ponto em que nenhuma das instituições soviéticas da psiquiatria admitiam sociedades científicas internacionais”, diz Twigg. “Eles ainda estão anos e anos atrás do Ocidente”.

Claro que um sistema pobre de cuidados de saúde mental vai afetar tanto homens quanto mulheres. Mas quando os homens já estão preparados para levar seus problemas ao bar, as oportunidades de ajuda disponível vão diminuir ainda mais.

Bonckute, que cresceu vendo muitos homens alcoólatras, acredita que os pós-soviéticos sejam incapazes de pedir ajuda e vão continuar recorrendo ao álcool quando tiverem qualquer tipo de problema. “Velhos hábitos custam a morrer”, diz ela, “e sempre existe uma desculpa para eles beberem”.

© 2014, Newsweek

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