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Parabéns ao chato

em Cássio Zanatta/News & Trends por

É aniversário do chato. E quando ele faz aniversário, tudo vira chatice. O chato não gosta de fazer aniversário, se esconde, odeia festa e fecha a cara se alguém bate palmas ou aparece com bolo e vela.

Mesmo sendo um sujeito chato, o aniversariante ganhou alguns presentes. Duas garrafas de vinho, dois livros (de auto-ajuda), uma camiseta laranja, um par de meias verdes, uma garrafa de gim, uma de porto, de pisco (desconfio que o pessoal acha que o chato o seja menos depois de uma cangibrina).

Desculpe se a relação dos presentes ficou meio longa, mas é obrigação de um cronista descrever as coisas como elas são. E depois, se ficou meio chato, orna com o aniversariante. E se isso lhe dá uma ponta de despeito, da mais miserável inveja, não posso ser responsabilizado por isso.

Há uma modesta fila para dar os parabéns ao chato. Ele fica meio sem graça, não sabe muito o que dizer. Digamos nós, então: deixe de ser chato, rapaz. Vire um bom contador de histórias, não seque mais o Brasil na Copa, não diga mais que vai chover o fim de semana todo e passe a achar imensa graça em plantar bananeira ou estourar sacos de pipoca, por exemplo.

Combinamos todos de almoçar com ele. Tomaremos vinho e diremos coisas impagáveis, no que ele não achará a menor graça, e não poderá faltar alheiras – mesmo embutido, alho é bom para espantar vampiros e desconfio que todo chato é um pouco vampiro.

Muito diferente do outro, tenho um amigo boa gente. Tão gente boa, que, no seu aniversário, seu filho deu de presente quatro lápis de cor e disse que era lápis para pintar arco-íris.

Mas hoje não é ele quem faz aniversário, é o chato. Não creio que ele vá ganhar lápis de cor. Ele não saberia o que fazer com eles. O chato não sabe o que fazer com bola, peteca, estrela, piada. Só sopraria uma língua de sogra se fosse para azucrinar a orelha de alguém. É o único sobrevivente em ver graça em dar sardinha na bunda de alguém. Assistiu a todas as aulas de Chatice I e II na Faculdade. Começa a piada revelando o fim. Chato, assim em maiúscula, mesmo se não começasse a frase.

No entanto, nós não vamos abandonar o chato. Vamos arrastá-lo, insistir, obrigá-lo a rir, na marra, até que aquela cara amarrada se torça um sorriso, sem jeito, músculos doendo no esforço. Mas que no fim se renda.

O sorriso do chato é uma vitória da humanidade. Quando um chato sorri, em algum lugar morre um pernilongo, fecha um cartório, dá um troço no sujeito assobiando no velório, alguém gargalha sem motivo e todos os alto-falantes que anunciam pamonha fresquinha perdem a voz.

E que ninguém emende o “Parabéns a Você” com o “Com Quem Será” cheio de animação. Por favor. De chato, já basta o chato.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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