Pensar e agir de forma holística nos deixaria loucos, por Roberto Stahelin

em Opinião/The São Paulo Times por
Foto: Reprodução
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Aconteceu por causa de uma campainha. Andando na rua que corta a minha rua, escutei um barulho estranho, contínuo, dessas campainhas que não fazem dim-dom, mas bzzz. Tá emperrada, mas logo o dono aparece pra arrumar, foi o que eu pensei.

Pensei errado.

No dia seguinte passei lá, bzzzzzz. Ué, será que o dono da casa ainda não tinha visto, ou melhor, ouvido a campainha emperrada? Observei o lugar e percebi que não era uma casa, era algum estabelecimento que não dava pra saber bem o que era. Uma fachada de arquitetura meio metida, mas sem nenhum letreiro na frente. Estranho. Bom, alguma hora isso aí vai abrir, o dono vai perceber e pronto, resolvido.

Alguns dias se passaram e quem não passou fui eu pela frente da tal casa, ou loja, ou sei lá. Mas numa dita segunda-feira, bzzzzzzzz. Cara, qual é a dessa campainha? Parei lá e fui conferir eu mesmo, mas não tinha nada de errado com o botão, o problema era outro. Desencanei e fui embora.

Naquela noite o barulho da campainha não me deixou dormir, mas não desse jeito que você tá pensando, não o barulho propriamente dito, o bzzz, porque o bzzz eu nem ouvia da minha casa, mas sim o fato dele estar lá acontecendo e eu não ter feito nada para impedir. Quero dizer, aquilo estava gastando luz, eu sei que uma campainha não deve consumir um absurdo, mas mesmo assim, era algo desnecessário, pior, algo errado que estava acontecendo no mundo, e eu ali, deitado numa boa, com a cabeça no travesseiro de cara limpa. Sim, associei tudo isso, em poucos minutos minha cabeça estava um turbilhão. Imagine esse parágrafo inteiro em loop formando sinapses e passeando pelos seus neurônios. Foi a primeira noite que não dormi.

Maldita insônia adquirida. Bzzzzzzzzz.

Acordei cedo, isto é, levantei cedo, porque não havia dormido de qualquer forma, e fui direto descobrir o que era aquilo. Passei na frente e, agora de fato, notei que não havia qualquer sinal, nada que indicasse quem poderia estar envolvido com aquele lugar. Toquei nos vizinhos, ninguém sabia de nada. Uma senhora de uns 170 anos me ofereceu café e bolo. Não aceitei. Eram 6h20 da manhã. Me admirei que ela estivesse de pé e vestida. Aliás, me admirei que ela já estivesse com o café pronto. Pensando bem, a única coisa com que não me admirei foi que nenhum vizinho sabia de nada. Eu também responderia que não sabia de nada se um cara qualquer batesse na minha porta 6 horas da manhã perguntando que construção era aquela na rua.

Sou mesmo um gênio, pensei quando tomei uma decisão que seria a primeira de qualquer garoto de 12 anos: vou jogar no Google. Através da rua e o número descobri, era um Centro de Auxílio à Crianças e Jovens. Liguei para o número que apareceu e falei com o Alberto, o fundador do lugar. Por pouco mais de um ano ele ajudou crianças órfãs, mas a casa já havia fechado há alguns meses por falta de verba para necessidades básicas, como comida, roupa, transporte e manutenções. Algumas coisas ele pagava do próprio bolso, mas não conseguia sustentar sozinho. No mais, dependia de doações, não tinha nenhuma ajuda do governo ou algo do tipo. E as crianças?, eu perguntei. Algumas delas ele tinha redirecionado para outros lugares, já outras, a rua era quem se encarregara de tomar conta.

– Mas pode deixar que eu vou lá ver a campainha.

Bzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.

Puta que pariu, era como se alguém tivesse tirado um ferro da brasa e enfiado direto no meu peito. O cara cuidava de crianças carentes e, como se já não bastasse ter de lidar com a dor de fechar o lugar, ainda liga um sem noção dizendo que a campainha estava emperrada.

Aquela foi a segunda noite que eu não dormi e o problema ainda tinha aumentado, não era uma campainha que tocava ininterruptamente e gastava energia sem propósito: eram crianças no mundo sem ter para onde ir. Eu não sei por que, mas naquele momento exato, assim, de repente, aquilo se tornou problema meu.

No dia seguinte, já virado num alho, liguei para o Alberto e me ofereci. A expressão é essa: me ofereci. Eu simplesmente decidi que não poderia mais viver em um mundo em que crianças estão morando na rua, e ele, um cara que já havia trabalho para reverter essa situação, poderia me ajudar a ajudar. Ele ficou contente com meu ímpeto, mas, macaco velho no assunto, já tratou de tentar acalmar meus ânimos, dizendo que a coisa não era tão bonita assim como se imaginava, nem todo mundo quer ser ajudado ou fica agradecido pela ajuda, aquelas coisas todas. Mas nada adiantou. A gente combinou de se encontrar à tarde, na frente da casa, e quase uma hora antes do combinado eu já estava lá.

Parado em frente à casa, notei que uma mulher bonita, elegante, usando saltos, de aparentemente uns 35 anos e com pinta de que ia para uma reunião de negócios, saiu de dentro de um carro após estacionar numa vaga para idosos. O ímpeto atacou ali também. Fui reclamar a vaga, não para mim, mas para qualquer idoso que realmente estivesse precisando. Ela não deu a menor atenção e ainda me chamou de metido.

Eu não sei se alguém entenderia essa pira, mas a partir desses episódios, tudo que via de errado no mundo passava a ser problema meu. Se o mundo nosso, quem, se não nós, para ajudar?

Encontrei o Alberto, arrumamos a campainha e fizemos planos de reabrir a casa. Eu ia usar meus conhecimentos em marketing para pedir doações. Depois, no caminho de volta, um mendigo que me pediu dinheiro também se tornou problema meu. Todos os mendigos se tornaram problema meu. Eu precisava ajudar. Perdia horas, dias ajudando mendigos. Saber de qualquer coisa errada em qualquer lugar já me tirava o sono. Bomba em Israel, queda de avião na Malásia, tiroteio no Rio de Janeiro, Guerra na Síria, corrupção em Brasília, bzzzzzzzzz.

Parei de ver TV e entrei para todos os grupos de apoio e defensores de minorias possíveis. Você ficaria impressionado com a quantidade e a variedade deles. Alcoólicos Anônimos, Dependentes Químicos Anônimos, Maníacos Sexuais Anônimos, Grupo de Apoio às pessoas com Câncer, com Psoríase, com Alzheimer, com Lupus, com Toc, com Transtorno Bipolar, com Zumbido, com HIV, com Síndrome do Pânico. Grupo de Defensores do Meio Ambiente, Feministas Unidas, Pelo Direito dos Negros, dos Albinos, dos Gays, dos Bissexuais, dos Trans, pela liberdade de expressão, de imprensa, de religião.

Não sei com o que perdi mais tempo na vida, se procurando remédios para insônia ou se tentando ajudar os outros. Porque só de saber que existe uma criança no Egito passando frio já não consigo dormir. Não sei como alguém consegue.

Por Roberto Stahelin.

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