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Poesias para sexta-feira

em Coluna/Poética Urbana por

FUNILARIA NO AR (I)

Funilaria
facada que vai ao centro,
súbita falta de língua
no pensamento.

Esta vontade de chover
pássaros onde o céu
é mais escasso, e a mão
não escolhe
é mão para escrever
mão para cumprimentar.

Funilaria: a lei
que manda afixar o olho
dentro da saliva de alguns séculos.

Funilaria de tambores.

Só eu, vacinado,
crismado, lido, treslido,
escondo-me do diabo,
rezo a Deus pelos pobrezinhos.

Há alguns anos tenho fome.
Fome que varou
a vaca, a siderurgia,
as debêntures.

Na calha
de minha loucura
sou o único a ter fome.

Parece que içaram
o verde na procissão
dos automóveis.

Só eu tenho fome.
Insisto: para onde foi a fome?
Castraram o paulatino
relâmpago de uma fome
que vinha de longe.

Não me importa:
continuo a ter fome
a morder a pele que não enxergo
de minha pátria.

Armindo Trevisan

A LUZ DE TUA PELE

À luz de tua pele invento a noite.
Nela me embrenho até à morte alheia.
Ninguém é mais sozinho do que o açoite
que apaga tua luz, e me incendeia.

Armindo Trevisan

SOBRE AS PLUMAS

Sobre as plumas da noite quando, amada,
a carne lhe varria o pensamento,

olhou à sua volta, e viu na estrada
os ossos de milhões que a lua ungia:

crematórios, bengalas, dentaduras,
retratos esmaecidos, tristes óculos …

E meditou no sonho e na loucura.
Como podia amar uma outra carne

se a carne, donde lhe nascera o sexo,
era esse fogo que lavrava forte

nos campos e cidades, semeando
vitríolo e estrume com a mão da morte?

Armindo Trevisan

A QUEM TE ALÇA

A quem te alça às nuvens, desvalida,
doas teu corpo. E apóias tua mão

numa outra mão, ciente de que o coito
é uma aventura de soldado afoito.

Pois essa subitânea valentia
te reconduz aos pés da noite fria,

onde tua mão é garra de animal:
e vence, de ambos, quem não desconfia.

Armindo Trevisan

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