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Policarpo Quaresma e o patriotismo de cada um

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Talvez não haja melhor momento pra falar sobre Triste Fim de Policarpo Quaresma do que agora, na semana da abertura das nossas olimpíadas, evento que já começou lindo e veio resgatar um orgulho há algum tempo adormecido dentro de nós. Mas calma lá que nem tudo são flores, embora estejamos falando de coisa boa – muito boa.

É difícil sugerir alguma novidade sobre um livro tão celebrado – ele já foi apontado como obra inaugural do Modernismo no Brasil -, portanto, saiba que há aqui uma tentativa de abordá-lo sob um ponto de vista contemporâneo.

A história é dividida em três partes: na primeira somos apresentados a Policarpo Quaresma, funcionário público e patriota devotado, e passamos a conhecer também a sociedade branca, rica e família-tradicional-brasileira dos subúrbios cariocas.

Quaresma é um nacionalista implacável, estudioso, defensor e entusiasta de todo e qualquer produto gerado nas terras tupiniquins. Conhece nossa história, nossa cultura e nossa geografia. Um dos traços mais curiosos do personagem é sua paixão pelos rios brasileiros, ele tem certeza absoluta de que são os maiores e melhores do mundo, e fica enfurecido quando alguém compara o Amazonas com o Nilo. A característica lembra um personagem de Antonio Callado em Bar Don Juan, amante também das nossas águas interiores e autor de uma das conclusões mais divertidas da nossa literatura: “a evidente superioridade dos paraenses derivava do fato inédito de viverem à margem não de igarapés como o Sena, mas de um rio com um escoamento de duzentos e quarenta mil metros cúbicos de água por segundo. Por segundo!” É bem provável que Callado tenha se inspirado em Quaresma para criar este personagem.

E por falar Quaresma, noutra demonstração de seu patriotismo ele discute com um companheiro de trabalho afirmando que o Brasil é muito melhor que a Europa, após ouvir comentários do outro de que não aguentava mais esperar para sair do país e viajar ao Velho Mundo.

Sim, em 1911 Lima Barreto já escrevia sobre a síndrome de vira-lata. Parece que Nietzsche estava certo sobre o Eterno Retorno – não que eu entenda muito disso, mas que vivemos a mesma coisa de novo e de novo para todo o sempre, isso vivemos – e Lima Barreto se mostra um gênio comprovando esta tese ao criar personagens e situação que fazem parte da nossa vida ainda hoje, mais de 100 anos depois.

O auge da primeira parte do livro é quando Quaresma envia uma carta ao governo sugerindo que o Tupi deveria se tornar o idioma oficial do país. Aí, então, o homem é execrado, passa a ser tratado como louco por toda a sociedade. É a mesmíssima força que hoje impele a família-brasileira a ter horror à cultura indígena e africana – os índios são “uns vagabundos que não querem trabalhar” e o candomblé é “macumba”.

Enquanto isso, na Europa contemporânea, a Irlanda resgata a cultura celta para reforçar a sua autonomia como povo, após se tornar independente do Reino Unido. No interior, peças de teatro são apresentadas em gaélico (idioma celta) aos turistas, povoados inteiros falam gaélico e ressaltam o fato com orgulho. Nas placas de trânsito, primeiro vem o gaélico e só embaixo o inglês. É como se os irlandeses estivessem dizendo “opa, antes de sermos anglo-saxões, somos celtas.” Já no Brasil, o que anda estampado na testa da classe média branca é “somos portugueses, índios, africanos e mais um monte de coisa, mas queremos mesmo é ser norte-americanos.” Uma pena.

Ao longo das partes dois e três do livro, Lima Barreto toca também na alma de seus outros personagem. Antes do triste fim de Policarpo Quaresma, o triste fim de Ismênia Albernaz é também desolador, e de novo: contemporâneo. A filha do general Albernaz é criada sob a influência da mãe, Dona Maricota. Nas palavras de Lima Barreto:

“A todo instante e a toda hora, lá vinha aquele – ‘porque quando você se casar…’ – e a menina foi se convencendo de que toda a existência só tendia para o casamento. A instrução, as satisfações íntimas, a alegria, tudo isso era inútil; a vida se resumia numa coisa: casar (…) uma espécie de dever, que não se casar, ficar solteira, ‘tia’, parecia-lhe um crime, uma vergonha.” No fim, essa cultura do casamento obrigatório leva Ismênia à loucura.

Quer descrição mais atual do que isso? Eu mesmo já ouvi relatos iguaizinhos nos dias de hoje, um deles de um companheiro de trabalho falando sobre a irmã, que se casou com o primeiro maluco que apareceu na frente porque a mãe vivia dizendo que ela “ia ficar pra titia”. Resultado: isso destruiu a vida da garota por um bom tempo, até ela perceber que estava cometendo uma loucura – quando a louca na verdade era sua mãe.

Voltando ao livro, a culpa que Dona Maricota sentiu no final leva uma moral quase de fábula: mães (e pais), deixem suas filhas em paz; elas é que devem escolher quando e se deverão se casar.

Outro traço de personalidade que Lima Barreto descreveu em 1911 e enxergamos até hoje é o interesse pessoal disfarçado de patriotismo ou ideal político. Em outras palavras, egoísmo hipócrita.

Quando Floriano Peixoto combateu as revoltas contra a República, seu jeito de arrebanhar correligionários foi distribuindo cargos, condecorações e promoções. O Almirante Caldas, porém, sentiu esfriar o seu nacionalismo ao perceber que não seria promovido após o final da guerra.

O paralelo com hoje? Precisa mesmo? Quantas vezes já não ouvimos “vou votar no fulano porque vai dar um emprego pro meu filho”, ou “o partido tal ajuda os empresários, vamos votar neles”? São pensamentos que ignoram solenemente os projetos apresentados para o bem geral, substituindo-os por puro interesse próprio camuflado porcamente de ideologia.

Talvez o Brasil seja grande demais para pensar no todo, tornando-nos patriotas de nós mesmos, de nossas famílias, de nossos estados, de nossas origens, cores e classes sociais.

Como disse Eduardo Gianetti na maravilhosa entrevista concedida ao site do El Pais a 26 de julho, “Temos uma agenda de século XIX que o Brasil do século XXI ainda não enfrentou. O mais gritante de tudo é o saneamento básico.” Está perfeito. Como foi dito, o Brasil é o que cada um escolhe ver: enquanto a classe média acha que o principal problema do país é a alta do dólar – porque esse é o seu principal problema -, quase metade da população ainda não tem banheiro! Existe aí uma falta de prioridade ou é impressão minha?

E voltando, finalmente, ao Triste Fim de Policarpo Quaresma, sua última característica atemporal é a perseguição política e os atentados contra a liberdade de expressão. Quaresma, logo ele, tão defensor do nosso chão, é taxado de traidor da pátria ao se opor a uma matança gratuita e deliberada promovida pela turma de Floriano Peixoto. Pra quem achava que isso só havia acontecido entre 1964 e 85 ou nas arquibancadas das olimpíadas, taí uma amostra de que a censura não é nenhuma novidade. E quem escolhe o que pode, e o que não pode ser dito, é o governo.

Tanto vai-e-vem encaminhou o texto para um lado negativo, mas Triste Fim de Policarpo Quaresma é muito mais do que um triste fim: é divertido, verdadeiro, um grande livro, cheio de grandes personagens e histórias maiores ainda.

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