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Por você

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Por você eu largaria os vícios, deixaria essa preguiça aperfeiçoada por décadas, meus troféus inúteis e até minhas camisetas que já eram velhas há vinte anos.

Por você eu decepcionaria o horóscopo, mudaria meu destino e faria o pessoal descrer de vez das cartomantes. Minha determinação seria maior do que tudo que o amor na casa em Saturno reservava aos librianos.

Esqueceria os porres recorrentes e meu sonho ridículo de ser reconhecido. Meu bandolim com duas cordas quebradas que um dia quis aprender e hoje é só um entulho jogado no armário. Meus sete livros repetidos na estante: só de “Grande Sertão, Veredas”, três. Os autógrafos que guardei, desapontos, fotos antigas e o chaveiro que nunca conheceu chave.

O leite turvaria na geladeira, a podridão das bananas atrairia uma festa de muriçocas e os jornais se avolumariam até impossibilitar a abertura da porta. Tudo ficaria para trás e aos poucos se esqueceria de mim.

Deixaria o medo de entrar em mar bravo, de altura, de aranha, esse orgulho sem motivo, até me desfaria da cadeira cativa na Vila Belmiro, se ainda não fui claro quanto à profundidade dos sacrifícios.

Abandonaria os amigos de décadas, minhas aulas de Pilates, de piano (doído), meus remédios de cada dia, minhas comidas sem glúten e essa conformidade revoltante. Esqueceria minha identidade no primeiro canto, já que a primeira coisa a fazer seria perder a identidade.

Morreria de saudades do café da padaria e das conversas na padaria, tudo por você. Trocaria minha pele no primeiro buraco, feito cobra, ou num tronco de árvores, feito cigarra. Com dor no coração daria adeus ao ovo empanado na parada da estrada em Mogi Guaçu, não sem uma cerimônia de despedida. À última hora, emocionado, uma dúvida me assaltaria, eu ficaria profundamente dividido, mas afinal iria embora, acenando do carro.

Esqueceria meu desequilíbrio, as cartas na gaveta, minha correntinha de ouro, levaria 4 cuecas, 3 camisetas (das novas), a escova de dentes e só a calça do corpo. Por você eu viveria feito índio, sem o menor pudor, tomando banho só de rio e envergonhando a ordem estabelecida.

O abandono da rede em que me estico e onde ponho a vida em ordem. O desprezo pelas chaves que não abrem nada de importante.

Por você eu largaria tudo. Tudo, tudo. Quer dizer. Menos a casquinha da polenta que fica grudada na panela de ferro que minha noninha sabia fazer como ninguém. Isso não.

Há limites. Pode esperar sentada.

 

 

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