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Quero morar na rua Iaiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Eu quero porque quero morar na rua Iaiá. Não na Professor Doutor Telêmaco Hypollito de Macedo Van Langendonck (juro que existe), esse nome aí dá muito trabalho, grande demais para uma rua que eu quero pequena. Não é o caso da Iaiá, que tem o nome que lhe cabe.

Ou então quero morar na Clarão da Lua ou na Travessa do Piquenique, tão mais aconchegantes que um nome metido a oficial. Porque esse pessoal não pode ver uma rua das Estrelas Brancas que já quer mudar para Deputado Fulano ou Governador Sicrano. Não quero dizer que as homenagens não sejam justas, mas, gentes, as estrelas brancas merecem mais, ou não?

Morro de pena dessas ruas que são uma data, como a 7 de Abril ou Praça XV de Novembro. Porque ficam felizes e orgulhosas uma vez por ano. No resto dos dias, elas só se alegram quando tem pipoqueiro na esquina ou um casal de namorados trocando uns amassos no muro onde a luz do poste não alcança.

Uma vantagem da rua Iaiá é que é fácil para qualquer estrangeiro dizer o nome. Os alemães, então, acham o nome duplamente positivo. Outra coisa boa é que ela meio que liga o nada ao lugar nenhum, portanto, não passa ônibus ou carro. Ela não sabe o que é uma ambulância, sirene de polícia ou manifestação contra arrocho salarial.

Juro que eu moraria facinho por ali. Faço questão de que haja ipê e chapéu de sol. Ipê para forrar a rua de cor e chapéu de sol para fazer sombra. E lembrar que eu estou no único país do mundo onde se pode morar na rua Iaiá.

Não muito longe da Iaiá fica a rua Zezefreda. Imagino que seja ou tenha sido uma alemã muito brava, que ralhava com os meninos que jogavam bola na frente da sua casa e faziam do seu portão o gol. Veja como o mundo é injusto: a rua então devia se chamar Do Jogo da Bola ou Dos Moleques, não Zezefreda. O pessoal não pensa. Garanto que se a dona da rua fosse a Iaiá, acharia até graça na farra dos meninos.

Outra coisa simpática da rua Iaiá: ela só vai até o número 68. Ao contrário de muitos endereços ambiciosos, que chegam a 2.874 ou mais. E não há só prédios, mas também casas simpáticas, inclusive uma com um cão que faz festa para qualquer um que passa. No muro de uma delas um gato faz plantão, apreciando o movimento e colocando ordem na bagaça toda só com a majestade da sua pose.

Ouvi dizer que há um movimento para aterrar os fios da rua. Há os que  são contrários por motivos sentimentais: não poderiam viver sem uma pipa amarrada no fio ou um tênis velho dependurado. Os que defendem o aterro argumentam que, quando venta, as árvores roçam os fios e causam falta de energia. Minha opinião (ninguém pediu, mas a crônica é minha e pronto) é que os fios enfeiam a rua Iaiá.

Para dizer a verdade, não sei se ela ainda existe, tanta coisa que não há mais nesse Brasil que era simples e bom, e hoje, sei lá, deu uma derrapada. Mas não quero fazer discurso nem levantar bandeiras. Só quero morar na rua Iaiá. Pode ser em casa ou apartamento, com fio nos postes ou não.

Minha única exigência é que a Zezefreda não seja minha vizinha. Eu, hein?

 

 

 

 

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