Receita

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Primeiro vem a parte mole: abrir o saco de biscoito. Erga as mãos para o céu e agradeça que essas embalagens são muito mais fáceis de abrir que suas congêneres tampas de iogurte, manteiga e palmito.

Aberto o saco, leve-o à mesa. É uma operação simples, que não exige destreza. Permite que você coma um ou outro biscoito no caminho, o que (pelo menos nunca vi) não é procedimento condenável numa dessas dezenas de programas culinários que assolam nossa TV e que são doidos para dizer se isso pode ou não.

Deixe o biscoito repousar uns instantes e, enquanto isso, cuidemos do café. Pode ser de coador ou de máquina. Particularmente, prefiro a delicadeza do café coado, mas sou preguiçoso de dar dó e apelo para o expresso. Ao passar o café (optado pelo de coador), é aconselhável que haja mais alguém no ambiente, pois, como demora um tantinho, tem-se tempo para falar de assuntos leves, como dizer como os anos têm passado depressa ou se o outro viu aquilo medonho no noticiário de ontem à noite. Já no caso do de máquina, o preparo leva apenas alguns segundos. Talvez dê tempo de espiar pela janela para apreciar o trabalho das nuvens ou constatar que a velhinha que sai para passear com quatro cachorros hoje leva apenas três, o que não deixa de ser preocupante.

Tudo pronto, sentemos à mesa que essa vida de chef é estafante. E porque tomar café de pé é daquelas tristezas que a gente vê uma ou outra pessoa fazer e morre de dó porque ela foi tomada pela pressa, corroída pelo stress e não se permite sequer um pouso para apreciar um café com biscoito.

Ah, sim, o café com biscoito. É chegada a gloriosa hora. Devidamente sentado, estica-se o braço, pega-se um biscoito do saco e leva-o à xícara. Não entendo esse apreço que as receitas têm pelos pronomes: em toda receita, seja da sua tia-avó ou da Palmirinha, é um tal de mexa-o, leve-o ao forno, unte-o e o escambau –  este último “o”, artigo, não pronome.

Com atenção e esmero, mergulha-se o biscoito dentro da xícara até que metade de seu corpo esteja abaixo do nível do café. Então, lentamente, o café vai penetrando no biscoito, escurecendo a superfície molhada. Excelente ocasião, aliás, para classificar a qualidade do biscoito. Pois se este não for novo, crocante e não tiver aquela porosidade desejada, este encontro das duas criaturas não se dará em harmonia. O café pode se recusar a penetrar e a receita desandaria feito o pudim de pão que tia Luzia fez no Natal e ficou tão estranho que o chamamos de “pudão de pim”.

Agora, atenção. Umedecido o biscoito (ia escrever “após molhar o biscoito”, mas isso poderia causar confusão e alguma vulgar releitura), deve-se levá-lo à boca. O desafio aqui é não deixar pingar café no trajeto, sujando a toalha novinha, posta ainda esta manhã. Consta que doze pessoas até hoje no mundo conseguiram a façanha de percorrer o caminho sem deixar manchas. Os outros dezoito milhões, quatrocentos e vinte e nove mil, trezentos e quarenta e sete criaturas falharam lamentavelmente, deixando pingar na toalha, no tapete, na camiseta, calção, escorrer pelo queixo, empapando dedos e guardanapos, uma coisa triste mesmo.

Entendida a ciência que envolve o ato, mastiga-se a seguir a feliz combinação. Note que o café adoça o biscoito, este salga o café e que isso é divino e maravilhoso. Não há mais aquele barulho bacana que o dente faz quando morde o biscoito, mas, como tudo na vida, há que pesar os prós e contras. Obviamente, o ganho de paladar é muito superior à perda auditiva.

Esta foi nossa dica culinária de hoje. Uma proposta simples, que dispensa ingredientes complicados como trufas da Lombardia, bambu da Manchúria ou espuma de limão do Peloponeso. Nada. Bastam café e biscoitos, que podem ser comprados na quitanda ou na já lendária padaria Trigonela. Uma última dica: bom ter uma criança junto para dividir e achar graça na sujeira que os pingos espalham e ajudar a recolher os farelos.

Esperamos ter sido úteis. Até o próximo programa, quando traremos a delicada e capciosamente fácil receita da Nutella na banana. Boa tarde.

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