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Recordar é viver

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Um dos princípios da dramaturgia diz o seguinte: não importa o que falam sobre um personagem nem o que ele fala sobre si mesmo, você só vai conhecê-lo de verdade através de suas escolhas quando ele estiver sob pressão. Por exemplo, no início do filme Aladdin é apresentado como um ladrão, as pessoas e a polícia chamam-no de ladrão. Mas após escapar de uma perseguição, Aladdin se depara com uma criança sem teto passando fome. O que ele faz? Entrega a ela o pão que a muito custo havia conseguido roubar, mostrando que, embora ladrão, ele tem um coração bom.

Este ensinamento da dramaturgia se adapta perfeitamente à vida real. Nós podemos conviver anos com uma pessoa sem saber nada sobre ela, mas no momento em que ela precisa tomar decisões, revela suas verdadeiras intenções e, portanto, sua identidade.

E nós estamos vivendo esse momento. Identidades estão sendo reveladas. Para o bem ou para o mal, os acontecimentos políticos do país nos últimos anos estão deixando as pessoas à flor da pele e forçando-as a assumir lados, e não apenas o lado coxinha e o lado mortadela, o lado golpista e o comunista, as coisas são mais complexas do que isso, ou, pelo menos, deveriam ser. Na dramaturgia um personagem, para ser interessante, deve ser complexo e contraditório. O que a vida, nesse caso, não anda demonstrando.

Na vida, muita gente está parecendo uma personagem relâmpago – e agora finalmente vem a dica da coluna – do filme O Que É Isso, Companheiro?

Sobre este longa brasileiro de 1997 não há nenhuma novidade para contar, apenas paralelos a traçar. Baseado num livro de Fernando Gabeira, ele conta a história real de dois amigos (Pedro Cardoso e Selton Mello) que se juntam ao Movimento Revolucionário 8 de Outubro para combater a ditadura e acabam tramando o sequestro do Embaixador Americano em 1969.

A personagem relâmpago citada acima é uma senhora interpretada por ninguém menos que Fernanda Montenegro. Ao observar de sua janela um carro parado na esquina com quatro pessoas em volta, ela liga para a Polícia Militar e denuncia a “atitude suspeita”. Pela única participação, figurino e o pouco diálogo travado com a polícia, é o perfil ideal de uma pessoa conservadora com a opinião limitada e clássica de que “política não se discute” porque “é tudo ladrão”. Uma personagem desinteressante, mas muito, muito real.

Limitar-se à ignorância em tempos normais já incomoda, mas pouco. Só que em tempos de golpe, assim como em tempos de ditadura, sabe o que isso me gera? Medo. Porque em tempos assim até os limitados são impelidos a opinar e, pior, a participar. E a limitação não permite fazer a matemática simples usando a própria opinião ignorante, que seria: se os políticos são uns bandidos e a polícia está sob comando deles, logo, a polícia é o quê? Essa resposta também está retratada no filme por meio da história de um militar com a tarefa mais suja de todas: a tortura. Um torturador apoiado, afinal, pela ignorância da “cidadã de bem” que ligou para a polícia.

Quase 50 anos depois, a história se repete, quando as pessoas se tornam a personagem desinteressante e previsível, que nada questiona e se deixa levar pelo lugar comum. Não lê, não pensa, não aceita ouvir e refletir sobre uma segunda opinião, mas acha bonito apoiar uma polícia que reprime manifestações, que leva estudantes presos no DEIC (alô, DOPS) e deixam-nos incomunicáveis por 8 horas sem nenhuma explicação. Enfim, a história se repete, ao menos uma parte.

É por isso que filmes como O Que É Isso, Companheiro? são tão importantes. E aos resistentes, se não basta a sugestão por todos esses motivos, ainda há Luiz Fernando Guimarães, Fernanda Torres, Cláudia Abreu, Marco Ricca e Nelson Dantas.

Em tempos de golpe, mais do que nunca, recordar é viver. Viver para não repetir.

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