Redondamente enganado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Posso estar redondamente enganado. O que explicaria a teimosia, essa insistência num círculo que sempre leva a um recomeço sem saída. Como se um deus girasse um compasso enferrujado e me pusesse no meio da circunferência, recitando poemas que não saem do lugar para ninguém ler, carrossel sem fim nem sossego.

Ou posso estar triangularmente enganado. Nesse caso, qual lado mediria mais? Equilátero ele não seria, sempre haveria uma dor ou um gozo para contrabalançar. Seria um engano desengonçado, desproporcional. Um lado teria metros; o outro, centímetros e o terceiro teria ido morar em Bombinhas. Com ângulos sem sentido, de uns 37,582°. Um triângulo que irritasse profundamente um matemático, mas inspirasse alguém sem certezas a brincar de gangorra na hipotenusa.

Quadradamente enganado e eu estaria preso entre quatro paredes iguais. Uma existência simétrica, mas errada. Como vidas que a gente julga estarem certas, mas para começo de conversa, não são retas coisa alguma, sempre a pegar os desvios. Como podem quatro lados exatamente iguais, isso não existe, uma hora algum se acha mais e arma uma revolução para mandar nos outros, aprendeu com os homens.

Já sei: retangulamente enganado. Feito um tijolo que tivesse acertado essa testa distraída. Um bloco de Lego que não encaixa com coisa alguma. Campo de futebol de várzea onde a bola nunca sai pela lateral, o jogo nunca para e a gente se acaba. Uma barra de chocolate intacta por não dar água na boca em ninguém. A caçamba que quer inverter a ordem e dirigir o caminhão. O vão livre do Masp sem o Masp.

Quem sabe eu estaria losangamente enganado. Como aqueles balões vagabundos que nunca sobem, queimam tão logo criam coragem. O amarelo da bandeira, que já simbolizou nosso ouro, mas agora é esse sorriso sequestrado. Ou a trinca de reis de ouros que você tinha – mas o adversário, que parecia estar blefando, tinha uma de ás e agora é preciso pagar a aposta e eles não aceitam que você lave os copos.

Ou seja: estou geometricamente enganado. Uma curva em um quadro de Braque. Longa pincelada em outro de Seurat. Espaço em branco numa partitura de Bach. Niemeyer só pensado em linha reta. Confuso por todos os lados. Perdido sob todos os ângulos. E sem jamais ser matéria para cair na prova de Geometria.

 

 

 

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