Relâmpago de troco

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não acreditem nessa história, meu senhor e minha senhora, de que a vida é um acontecimento inocente. A danada só finge da maneira mais descarada. Fica ali, distraindo a gente com brisas, Copas do Mundo e pastéis de feira, esperando só um descuido do cidadão contribuinte para dar o bote.

Ontem, por exemplo. Fui pegar o metrô até a Paulista e comprei uma passagem ao preço de 4 reais, valor vigente no glorioso mês de junho de 2018. Dei uma nota de 5 reais e recebi de troco um relâmpago.

O troco veio em duas moedas de 25 centavos e 5 de 10 centavos. Até aí, nada de mais. Mas as 5 moedas vieram numa pilha, amarradas com durex, igualzinho a como meu pai fazia.

Ele tinha uma lanchonete na 7 de Abril, trabalhava no caixa e tinha o costume de empilhar e grudar os centavos até totalizar 1 real, num curioso totem monetário. Assim ficava mais prático dar o troco correto, sem perder tempo contando moedas. Eu tinha apreço pelas pilhas, porque viravam traves no futebol de botão ou monstros que surgiam para destruir minhas cidades de caixas de fósforo.

Muita gente não gostava disso (imagino que ainda não goste). Eu mesmo, com minha costumeira habilidade, me atrapalhava para descolar o durex e, na função, às vezes deixava cair e espalhar as moedas pelo chão. Isso não seria um grande problema, não fosse o fato de que trabalhei com papai 3 anos, substituindo-o no caixa da lanchonete. Daí era um upa para recolher as moedas quando ele voltava ao posto. Fora que substituir, no caso do meu pai, insubstituível na arte da prosa e simpatia, era verbo de absurda conjugação.

Acontecia de minhas unhas rasgarem a ponta do durex, imobilizando o totem para sempre. Ou deixar uma moeda dependurada ou ainda, se bem sucedido, meus dedos ao final ficarem grudentos (ou podia ser uma overdose de risolis). Mas duvido, com minha falta de jeito, que qualquer outro sistema me faria brilhar.

Quem cintilava era meu pai. As pessoas saíam do Centro Velho, atravessavam o Anhangabaú e vinham até a 7 de abril almoçar, para mendigar uns minutos de seu sorriso e conversa, encostadas ao caixa. Eu ficava olhando para ver se aprendia, mas sempre fui meio moita, bicho do mato, melhor nas observâncias que na arte da prosa.

Pois então me recuso a abrir mão desta pilha de moedas dada de troco. Vou guardá-la em alguma gaveta, mesmo contrariando os cartazes do metrô que pedem encarecidamente que a gente ponha as moedas em circulação. Desculpem, autoridades, mas estas vão ficar comigo. Não é culpa do durex. A culpa é do sujeito que insiste em colar seu pai em tudo: árvore, óculos, passarinho, sorvete, talo de salsão, batida de fruta, relógio de pulso, Copa do Mundo…

Algum dia vou abrir a gaveta e dar com a pilha de moedas naquele susto bom, que desvia a gente de problemas do dia-a-dia e nos faz lembrar de que a vida, além de descarada como ela só, é um sopro. E que durex algum consegue juntar o que há pouco estava nas mãos e escapou entre os dedos.

Gaveta o quê. Vou guardar comigo é no bolso mesmo.

 

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