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Sem banana

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– Sua salada de frutas, senhor.

– Obrigado, que mara… mas péra aí: cadê a banana?

– Como, senhor?

– A banana, não tem banana? Estou vendo algumas frutas aqui (aliás, não muitas), mas não estou vendo banana.

 

– Acredito que nossa salada de frutas não leva banana.

– Pois eu que não acredito! Então vocês poderiam chamar de outro nome: “Amostra de Frutas”, “Breve Mostruário de Frutas”, “Impressão de Frutas”. Mas, sem banana, não temos uma salada de frutas.

– Lamento, mas…

– Aqui temos mamão, laranja, pera. Veja bem: uma salada de frutas pode perfeitamente passar sem pera. Mesmo estes seis pedacinhos de melão, são dispensáveis. Melão já teve mais gosto, não sei o que fizeram, hoje é essa coisa branquela com gosto de água. E o morango: antes era pequeno, saboroso. Agora deram uma bombada e, o que ganhou em tamanho, perdeu em perfume e sabor. Em todo caso, é preciso que haja banana.

– Mas há quem…

– Há quem não goste de Beatles, cavalheiro. Há quem odeie praia. Quem palite os dentes em público. Quem torça contra o Brasil na Copa. Há de tudo, até quem negue a banana onde ela é imprescindível.

– Eu posso pedir para o rapaz da cozinha…

– Ótimo. Eu agradeço. Por favor, me traga uma salada de frutas que honre o nome: com manga, abacaxi, uva, maçã, e vai lá, melão. Mas não pode esquecer a banana. Em rodelas generosas, que dão encanto à coisa toda.

– Com banana. Pra já.

*     *     *

– Prontinho.

– Agora sim. Salada de frutas como tem que ser: com… Mas péra aí: banana ouro?

– Não saberia dizer, senhor.

– É banana ouro. Me diga se, com esse amarelo mais escuro, essa textura, essa sem-gracice, vai ornar com a maçã e a manga.

– Não entendo de banana, senhor.

– Estou vendo. Tenha dó. Eu bem desconfiei: a salada de fruta veio pela segunda vez com uma ridícula folha de hortelã pendurada. Me diga o que faz hortelã na salada de fruta. No mais, a banana podia ser prata, podia ser da terra, podia ser nanica. Mas não. É banana ouro. Francamente. Vocês estão de brincadeira e eu não sou palhaço. Com licença.

Levantou-se e saiu do restaurante batendo pé. O gerente ainda tentou um salamaleques. Mas ele nem se dignou a ouvir, a esperar, a pagar. O cliente ao lado no balcão pensou em adotar a salada de fruta enjeitada.

Na porta, parou, virou-se com a expressão mais ofendida e mandou – ela mesmo – uma gloriosa banana para o garçom.

OK, é um final óbvio e idiota, mas não me ocorreu outro.

 

 

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