Sobre a ponte

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Oi, ponte. Olha eu aqui de volta.

Pronto. Agora o sujeito deu para falar com pontes. Não bastasse inventar conversa com passarinho, como se falasse com o pai, agora essa.

Deve ser a emoção de estar aqui de novo. Em 91, bati o recorde mundial de ficar olhando o mundo por esta ponte. Era de noite e fazia um frio do capeta, o que é uma péssima e inadequada imagem. Mesmo assim, encontrei um canto protegido do vento e fiquei horas espiando, pensando na vida.

Durante o dia fez um calor do capeta (agora sim). Mas nem a noite que traz essa brisa gostosa faz as pessoas que passam pela ponte se deterem um minuto. Se o fizessem, veriam que as luzes da cidade, tantas, dançam e se multiplicam nas águas, o que resulta no milagre de deixar esta cidade ainda mais bonita que de dia.

Passam debaixo da ponte barcos lotados de turistas alegres, que acenam para quem está em cima. Não vou acenar de volta, vou fingir que sou um local que acha os turistas um bando de idiotas e vou bufar e balançar a cabeça, num gesto de quem acha essa coisa de acenar um troço ridículo. Talvez pragueje falando sozinho e siga meu rumo.

Um casal de patos segue um barco de turistas. O que faz um pato acordado a essa hora? Ele deve estar se declarando a ela, para isso trouxe-a para debaixo desta ponte, estrelas e luzes. Próxima vez que alguém dizer que os patos são meio tontos vai ouvir umas boas.

No meu tempo (expressão que revela como somos pretensiosos, achar que nós é que temos o tempo, não o contrário), os barcos passavam com fortes refletores que iluminavam as margens, os lindos prédios, os monumentos e os beijos dos namorados. Hoje não é mais assim, não há mais aquele espetáculo. Devem ter descoberto que as luzes prejudicam os pássaros que fazem seus ninhos às margens do rio, e façam os namorados a gentileza de entender que os bichos são mais importantes que os seus beijos, que podem ser fugidios, frutos de uma paixão passageira, amanhã mesmo as bocas estarão em outras bocas, mas deixa eu voltar a admirar o panorama antes que me acusem de ficar espiando namorados.

Alguém distante canta uma música bonita e nem precisava. Atravesso a rua para espiar do outro lado da ponte. Há menos luzes, mas em compensação há duas luas: uma parada no céu e outra tremelicando na água. Bem perto de mim, um grupo de amigos sentados no chão conversa muito seriamente. Se for sobre política, desisto da humanidade. O barco dos turistas já não vem, atravessou a ponte, agora ele vai, mas sempre há quem se vire a acenar para quem está atrás, no alto, mas o fato de ter atravessado a rua em nada alterou minhas convicções, e continuo não retribuindo ao aceno. Os patos não atravessaram para o outro lado. Torço para que estejam fazendo a coisa certa debaixo da ponte.

Minha mulher e meus filhos ficaram no hotel. O dia foi cansativo. Mas essa visita, eu tinha mesmo que fazer sozinho, rever a ponte e o panorama. Conversar com ela (comigo, na verdade?), ficar um longo tempo apreciando, talvez sair na foto de algum turista e prometer uma volta dentro em breve. Imagino como a ponte se derrete de emoção.

Napoleão passou por aqui. Tati se debruçou para mirar o rio. Flaubert, Brassens, Victor Hugo, Deneuve, Picasso, já estiveram nesse mesmo lugar, sob essa mesma Lua, de mãos dadas com seus amores. Debussy, Matisse, Woody Allen, Piaf, Hemingway, Foucault, Monet, todos encantados. E agora, eu.

Veja como o mundo decaiu que é uma coisa horrorosa.

 

 

 

 

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