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Sou um idiota

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Idiota, do grego idiótes. Uma pessoa leiga, despreparada, sem habilidade. Com o passar dos tempos e o espalhar dos continentes, seu significado passou a designar uma pessoa tola, parva, tapada, estúpida. Eu não faria feio em qualquer dos significados.

Tenho dificuldade para trocar uma lâmpada e fritar um ovo – se me arriscasse a fritar um ovo. Esquentar leite é uma tarefa que me exige concentração e esmero. Na hora de fazer baliza, nem tento: entrego a direção para minha mulher. Quando pifa o chuveiro, dá gosto de ver minha habilidade em pegar o telefone e pedir encarecidamente que alguém venha consertar.

Mas no outro sentido também me sinto à vontade. Esqueço facinho o nome de quem menos devia; levo dias para concatenar uma resposta que devia ter dado na hora; revejo filmes ruins para só perceber que já os assisti faltando dez minutos para o final. De uns tempos para cá, ando tão lento que qualquer um me ultrapassa na rua. Digo, ontem alcancei uma senhora de 85 anos que andava de bengala checando o celular. Evito discutir, mesmo quando estou certo (agora fiquei na dúvida se isso é idiotice ou covardia).

Acordo pelos temores mais bocós: será que eu deixei o chuveiro ligado? Paguei esse mês a cativa na Vila? Eu me despedi da dona da festa? Umas dez vezes por dia, me pego procurando os óculos, de nada adianta espalhar cinco pela casa.

Jamais lembro a senha do cartão, mas perfeitamente que o irmão malvado do Thor, o Deus do Trovão, se chamava Loki. Tenho que fazer conta para lembrar a idade, mas sei o nome de todos os Herculóides. É capaz de eu perder o rumo de casa se minha cabeça toca Rachmaninoff. Conto os ladrilhos, pisos e os cacos dos vitrais durante sermões ou discursos.

Meias trocadas nem me incomodam mais. Dizer “um beijão” para a moça do telemarketing é de praxe. O pior é que não tenho cara de idiota: as pessoas me acham confiável, pedem informações na rua e as dou totalmente equivocadas, depois é um upa para alcançar e desfazer o erro.

Meu consolo é constatar que nós, idiotas, conquistamos o mundo. Está tudo dominado: da energia elétrica que acaba à menor chuva ao prato que nos chega errado no restaurante; das quedas diárias da internet à maciça audiência dos programas de auditório. Até nas menores coisas: colocar a camiseta do avesso ou descer do elevador no andar errado. Mas nas grandes também lá estamos: presidentes, bandeirinhas, engenheiros, compositores bregas, programas de computador, motoristas, ninguém nos segura.

Só não marcamos um grande evento comemorativo porque uns iriam errar o local, outros, o dia, e os mais idiotas, achar que lá seria um bom lugar para se encontrar um amor.

Mas o amor pode mesmo aparecer nos lugares e situações mais idiotas. Há casais que se conheceram na rua, depois de descerem do prédio da empresa durante a simulação de emergência. Em brigas de torcidas. Em festas à fantasia, quando os dois, bem vestidos, esqueceram que era uma festa à fantasia.

É isso o que dá graça à coisa toda. Amar nos faz um tantinho menos idiotas. Um breve instante em que nos sentimos divinos.

Até aparecer o poste à frente e nós checando o celular.

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