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No escuro

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram caindo uns trovões brabos na redondeza e isso assustou a eletricidade. Escrevo à luz de velas como faziam Cervantes, Eça e Shakespeare, mas a iluminação dos gênios definitivamente não me alcança.

Li em algum lugar que uma das principais causas da recente descrença dos homens em Deus é a luz elétrica. Na claridade, somos racionais e céticos, temos certezas absolutas e parece não haver precisão do sagrado. No escuro, não: somos indefesos, temos pavores, vemos coisas terríveis, assombrações, fantasmas pela casa, e fica mais fácil e necessário contarmos com algum espírito superior.

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Fronteiras

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Foi algo do lado de lá que o chamou e você é curioso de dar dó. Vai até a fronteira, pleno de certezas erradas. Dá uma espiada no limite que julgava conhecido e leva um susto: aquele mundo que você achava que era, é muito maior. Atordoado, você volta, mas ficar não é mais possível. Só o tempo de arrumar a mochila para redescobrir onde aquilo vai dar.

Nove meias é o bastante? Para a água ou para o mato? É preciso olhar tanto o musgo como a onda, e que o vento decida. E ele sopra forte, você é carregado para longe, vê árvores douradas de folhas secas e águas que não molham, tão frias e impossíveis de entrar. Há coisas estranhas, como um sol que até aparece, mas não esquenta; ser noite às três da tarde; o silêncio sem passarinho e comprar banana não em cacho, mas por unidade. Sua cabeça roda, seus passos duvidam um pouco, mas caminham, sempre caminham, até chegar à próxima borda e ver que a coisas vão ainda além. As fronteiras não sossegam.

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A mulher que ri

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você tenha tempo de sobra ou sobra no saldo do banco, a hora de pagar as compras não tem nada de impagável.

No entanto, a terceira mulher na fila à minha frente desembestou a rir. Não houve um crescendo, uma risada tímida que aos poucos se transformasse em gargalhada. Não: já de saída ela ria solta e despudorada. Primeiro, achei que estava vendo um filme na tela do celular. Mas não havia celular, apenas uma fila no supermercado que, sabe lá por que razão, fez a mulher rir, rir uma risada tão solta que, se ela fizesse xixi ali mesmo, formando uma poça de que a fila teria de se desviar, ninguém haveria de estranhar, muito menos censurar.

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Parabéns ao chato

em Cássio Zanatta/News & Trends por

É aniversário do chato. E quando ele faz aniversário, tudo vira chatice. O chato não gosta de fazer aniversário, se esconde, odeia festa e fecha a cara se alguém bate palmas ou aparece com bolo e vela.

Mesmo sendo um sujeito chato, o aniversariante ganhou alguns presentes. Duas garrafas de vinho, dois livros (de auto-ajuda), uma camiseta laranja, um par de meias verdes, uma garrafa de gim, uma de porto, de pisco (desconfio que o pessoal acha que o chato o seja menos depois de uma cangibrina).

Desculpe se a relação dos presentes ficou meio longa, mas é obrigação de um cronista descrever as coisas como elas são. E depois, se ficou meio chato, orna com o aniversariante. E se isso lhe dá uma ponta de despeito, da mais miserável inveja, não posso ser responsabilizado por isso.

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Quero morar na rua Iaiá

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Eu quero porque quero morar na rua Iaiá. Não na Professor Doutor Telêmaco Hypollito de Macedo Van Langendonck (juro que existe), esse nome aí dá muito trabalho, grande demais para uma rua que eu quero pequena. Não é o caso da Iaiá, que tem o nome que lhe cabe.

Ou então quero morar na Clarão da Lua ou na Travessa do Piquenique, tão mais aconchegantes que um nome metido a oficial. Porque esse pessoal não pode ver uma rua das Estrelas Brancas que já quer mudar para Deputado Fulano ou Governador Sicrano. Não quero dizer que as homenagens não sejam justas, mas, gentes, as estrelas brancas merecem mais, ou não?

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Não é possível

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Não é possível que a casa da avó seja hoje apenas uma casa a mais, igual a todas as outras da cidade. Que o quarto seja tão menor do que aquele guardado na memória (cabiam 8 crianças, um cachorro, a guerra de travesseiro e as broncas das mães).

Que no quarteirão não haja um ipê, pitangueira, moita nascida sem querer ou qualquer outro pouso para passarinho que não seja um fio. Ou que o quebra-queixo esteja em extinção. Que alguém ache arco-íris a coisa mais normal do mundo.

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Leonardo

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Ê, menino desejado, sonhado, esperado, aí está você. De pele cor de rosa, tufos que prometem cabelos e olhos à procura. Não tenha pressa, durma nos braços do tio-avô. Você só está aí há dez minutos, tão aconchegado, em paz, fique mais um pouco. Mas a boca já faz bico, logo vai querer mamar. Comida é uma coisa boa de estar vivo.

Não se assuste, você nasceu perfeito. Tem mãos e pés, não consegue vê-los porque é tão pequenino que a roupa sobra. Onde deveria haver os dedos está a manga azul de sua roupinha.

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A apresentação

em Cássio Zanatta/News & Trends por

– E para apresentar o planejamento da empresa para o próximo triênio, passo a palavra ao nosso diretor, Luiz Paulo.

Todos os olhares se voltam para mim. Levanto-me com gestos lentos, abotoo meu paletó e assumo a frente da mesa. Não tão rápido que não passe afoiteza, nem tão lento que transmita insegurança.

Muito bem, é agora. Os próximos três anos. Como dizer a essa gente que não faço a menor ideia? Se eu não sei onde passar o próximo fim de semana, se na casa dos sogros na praia ou no sítio do amigo em Tatuí; se minha mulher é quem escolhe minhas camisas; se suo frio na sorveteria para escolher 1 entre 100 sabores, quem sou eu para saber o que supostamente vai acontecer em 2021?

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Tudo inventado

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O que a gente não inventa nesta vida. Inventa conquistas improváveis, feitos de matar herói de inveja, amores que jamais serão, arranca aplausos e suspiros; assim como é protagonista de derrotas vexatórias, dessas de vaias, tomates e safanões – o inventor dentro da gente ora é um hiperbólico, ora um masoquista.

Já marquei gol de placa na decisão do campeonato e só fui abraçado por alguns travesseiros. Tomei impulso com os braços e levantei voo, impressionando todos na calçada. Assim como tropecei na festa chique e caí no espelho d’água, tudo para que ela me desse atenção (o que prova que o inventor dentro da gente também tem suas vezes de idiota).

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Essa coisa

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O nome é tão feio que melhor é chamá-la de coisa. Essa coisa que nasceu aqui dentro e quer viver minha vida: roubar minha comida, meus músculos e taras para seu sustento. Uma visita que chega de mala e cuia quando você estava de saída para o cinema. A sensação quando a roda gigante enguiça, sua cadeira para no alto e você fica balangando no ar. Um prato que o garçom traz por engano e insiste em que é seu.

Essa coisa brincando de Pollock no meu cérebro fez da calçada uma pinguela. Das paredes, sustos e alguns roxos. Encheu os pés de formigas e agora toda noite acontece da perna querer sair da perna.

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Claro que a gente pode ir morar no Exterior, amor, mas

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Nesse caso, quem vai colher pitanga no quintal – vai ficar tudo para os tico-ticos e sanhaços? Quem é que vai secar o Corinthians? Onde mais ver casas com parede cor de rosa, terraço amarelo e janela verde, de onde uma senhora com cabelo roxinho fica espiando? Como viver sem Yakult e os lactobacilos vivos? Como resolver a fome atrevida que não respeita horário nem continente, se nas esquinas de lá não tem padaria nem pão na chapa nem broa nem média nem pão de queijo com café de coador, e como é que se vive sem pão de queijo, meu amor?

Dá pra viver sem assistir a uma pelada na praia em que o goleiro foi dar um mergulho e deixou o gol vazio e ninguém chuta no gol enquanto ele não volta, porque há limites para a falta de esportividade?

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Assim, de repente

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De uma hora pra outra, me vi emocionado numa queima de fogos. Disfarcei um choro sentido e sem sentido, particularmente quando explodia algo azul. Foi pouco depois de perceber que agora ficaria meio ridículo fazer tatuagem.

Comecei então a ter de fazer conta para lembrar a idade. A me atrapalhar para pagar uma conta pelo celular, como meus pais se atrapalhavam com o controle remoto da televisão. Cada vez mais inconformado com o sumiço dos coletes.

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