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Da hora

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Chega uma hora em que não é mais desconcertante rever o grande amor. Mais provável ser atropelado na ciclofaixa. Tempo dos cabelos irem desistindo pelo caminho, das ilusões respirarem por aparelhos e de se munir de toda a paciência que resta quando alguém discute política como se fosse a coisa mais importante.

O tempo de tudo que ainda for possível. Da urgência de experimentar  uma fruta desconhecida. Caminhar por uma cidade onde nunca se esteve. Hora de dar menos autoridade ao despertador. De ficar horas matutando, tentando se lembrar do nome do colega de Ginásio. Quando o dia resolve ter a duração de 19 horas e cada sete anos passam a caber em cinco. Da sesta mais por obrigação que por opção.

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Quando se deixa de ser criança

em Cássio Zanatta/News & Trends por

A gente deixa de ser criança quando não acha mais espirro engraçado. Nem homem careca (às vezes até vira um). Quando pensa que é a coisa mais normal do mundo a estátua do Cristo estar lá em cima da montanha e que passear no Bondinho é programa de turista. Deixa-se de ser criança por muito pouco.

A criança desaparece – plim – quando os olhos espiam um gramado e não sentem uma vontade incontrolável de procurar tatu bolinha. Quando passa a classificar hamburguer como comida, e não algo divertidíssimo que, se a gente apertar aqui, sai um molho ali, uma alface acolá, até saciar o desejo de sujar todos os dedos das mãos e o redor da boca num tanto que não há guardanapo que dê jeito.

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25

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Foi num 12 de outubro. Como era Dia das Crianças, fomos ao cinema ver Pinóquio. Prometemos encher o que um dia seria nossa casa de relógios cuco, nunca deixar o nariz crescer e evitar o estômago de baleias. Dois anos depois estávamos juntos, num dia 2 como hoje. Bodas da cor que vão tomando os cabelos. Muita gente dizendo “nossa, coisa rara, hoje em dia” e o tom não parece muito ser de aprovação. Por isso, todos os buquês e olhares e cuidados parecem pouco. Jantar marcado no restaurante, estamos nos arrumando, dividindo o espelho do banheiro.

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No céu não tem facebook

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Certo, é um pensamento besta. Se a gente for mais besta e se embrenhar no assunto, imagina que essas modernidades não devem impressionar muito o povo de lá. Para quem tem a eternidade pela frente, algo de novo é assunto por 300, 500 anos e todos ainda estão maravilhados com a descoberta do avião. E como será que o pessoal faz para aproveitar o tempo? Se para a gente alguns domingos de chuva demoram a passar, imagina ter todo o tempo do mundo. Se ficam a conversar, que tanto assunto eles têm? Há livros no céu? Baralho? Cinema, a obra completa de Victor Hugo, Programa Silvio Santos, War?

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A Terra do Se

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Fica lá, logo depois de Patos de Minas, e agora estou na dúvida se segue pelo Estreito de Magalhães ou pelo Canal de Suez. Uns dizem ficar na Austrália, outros, na única praia de água quentinha na Islândia, mas há muita interferência e propaganda dos Ministérios de Turismo pelo mundo, o que dificulta a localização com exata latitude e longitude. Mas que existe, ô se existe:

A Terra do Se. O lugar onde todos os “ses” que ficaram na promessa se realizam.

Eta, se aquela bola na trave tivesse entrado. Aqui, neste mundo que insiste em ser ranzinza e econômico em realizar devaneios, não entrou: foi pra fora, nem escanteio o juiz marcou, e a torcida saiu do estádio muda, olhando para o chão e ruminando amendoim. Pois na Terra do Se não só a bola entrou como estufou a rede e a galera fez uma festa de doido, que teria durado uma semana se o pessoal tivesse saúde, mas como estava na Terra do Se e tinha saúde, pique e fígado à beça, a comemoração já entrou no segundo mês.

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No escuro

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Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram caindo uns trovões brabos na redondeza e isso assustou a eletricidade. Escrevo à luz de velas como faziam Cervantes, Eça e Shakespeare, mas a iluminação dos gênios definitivamente não me alcança.

Li em algum lugar que uma das principais causas da recente descrença dos homens em Deus é a luz elétrica. Na claridade, somos racionais e céticos, temos certezas absolutas e parece não haver precisão do sagrado. No escuro, não: somos indefesos, temos pavores, vemos coisas terríveis, assombrações, fantasmas pela casa, e fica mais fácil e necessário contarmos com algum espírito superior.

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Fronteiras

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Foi algo do lado de lá que o chamou e você é curioso de dar dó. Vai até a fronteira, pleno de certezas erradas. Dá uma espiada no limite que julgava conhecido e leva um susto: aquele mundo que você achava que era, é muito maior. Atordoado, você volta, mas ficar não é mais possível. Só o tempo de arrumar a mochila para redescobrir onde aquilo vai dar.

Nove meias é o bastante? Para a água ou para o mato? É preciso olhar tanto o musgo como a onda, e que o vento decida. E ele sopra forte, você é carregado para longe, vê árvores douradas de folhas secas e águas que não molham, tão frias e impossíveis de entrar. Há coisas estranhas, como um sol que até aparece, mas não esquenta; ser noite às três da tarde; o silêncio sem passarinho e comprar banana não em cacho, mas por unidade. Sua cabeça roda, seus passos duvidam um pouco, mas caminham, sempre caminham, até chegar à próxima borda e ver que a coisas vão ainda além. As fronteiras não sossegam.

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A mulher que ri

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Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você tenha tempo de sobra ou sobra no saldo do banco, a hora de pagar as compras não tem nada de impagável.

No entanto, a terceira mulher na fila à minha frente desembestou a rir. Não houve um crescendo, uma risada tímida que aos poucos se transformasse em gargalhada. Não: já de saída ela ria solta e despudorada. Primeiro, achei que estava vendo um filme na tela do celular. Mas não havia celular, apenas uma fila no supermercado que, sabe lá por que razão, fez a mulher rir, rir uma risada tão solta que, se ela fizesse xixi ali mesmo, formando uma poça de que a fila teria de se desviar, ninguém haveria de estranhar, muito menos censurar.

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Parabéns ao chato

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É aniversário do chato. E quando ele faz aniversário, tudo vira chatice. O chato não gosta de fazer aniversário, se esconde, odeia festa e fecha a cara se alguém bate palmas ou aparece com bolo e vela.

Mesmo sendo um sujeito chato, o aniversariante ganhou alguns presentes. Duas garrafas de vinho, dois livros (de auto-ajuda), uma camiseta laranja, um par de meias verdes, uma garrafa de gim, uma de porto, de pisco (desconfio que o pessoal acha que o chato o seja menos depois de uma cangibrina).

Desculpe se a relação dos presentes ficou meio longa, mas é obrigação de um cronista descrever as coisas como elas são. E depois, se ficou meio chato, orna com o aniversariante. E se isso lhe dá uma ponta de despeito, da mais miserável inveja, não posso ser responsabilizado por isso.

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Quero morar na rua Iaiá

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Eu quero porque quero morar na rua Iaiá. Não na Professor Doutor Telêmaco Hypollito de Macedo Van Langendonck (juro que existe), esse nome aí dá muito trabalho, grande demais para uma rua que eu quero pequena. Não é o caso da Iaiá, que tem o nome que lhe cabe.

Ou então quero morar na Clarão da Lua ou na Travessa do Piquenique, tão mais aconchegantes que um nome metido a oficial. Porque esse pessoal não pode ver uma rua das Estrelas Brancas que já quer mudar para Deputado Fulano ou Governador Sicrano. Não quero dizer que as homenagens não sejam justas, mas, gentes, as estrelas brancas merecem mais, ou não?

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Não é possível

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Não é possível que a casa da avó seja hoje apenas uma casa a mais, igual a todas as outras da cidade. Que o quarto seja tão menor do que aquele guardado na memória (cabiam 8 crianças, um cachorro, a guerra de travesseiro e as broncas das mães).

Que no quarteirão não haja um ipê, pitangueira, moita nascida sem querer ou qualquer outro pouso para passarinho que não seja um fio. Ou que o quebra-queixo esteja em extinção. Que alguém ache arco-íris a coisa mais normal do mundo.

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Leonardo

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Ê, menino desejado, sonhado, esperado, aí está você. De pele cor de rosa, tufos que prometem cabelos e olhos à procura. Não tenha pressa, durma nos braços do tio-avô. Você só está aí há dez minutos, tão aconchegado, em paz, fique mais um pouco. Mas a boca já faz bico, logo vai querer mamar. Comida é uma coisa boa de estar vivo.

Não se assuste, você nasceu perfeito. Tem mãos e pés, não consegue vê-los porque é tão pequenino que a roupa sobra. Onde deveria haver os dedos está a manga azul de sua roupinha.

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