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Incontrolável! - page 2

Santiago e a Copa (do outro lado) do Mundo

em Coluna por

marco

Santiago e a Copa (do outro lado) do Mundo

Acabara de chegar à cidade para visitar uns familiares e naquela mesma noite era jogo de copa do mundo. Era muito bom estar na Europa, mesmo porque a vitória do Brasil era relativamente uma certeza mundial. E a festa estava armada para isso. Todos unidos – não apenas os brasileiros – vestindo verde-amarelo. Telões por todos os lados, bares cheios, repiques de samba eram ouvidos nas esquinas. Bandeiras brasileiras nas sacadas, carros, e mãos das crianças.

Santiago e os tios resolveram assistir ao jogo no bar do estádio do clube de futebol mais importante daquela elegante capital europeia. Chegaram quando o jogo já havia começado. Poderiam ter vindo mais cedo, ficaram espremidos, sentados próximos à escada. Muita gente, na maior parte brasileira e simpatizante. Inúmeros telões no salão. Uma banda de samba esperava a vitória brasileira para iniciar o saudosista repertório comemorativo da noite. Mas, para a tristeza geral da maioria, a banda não tocou. Após os 90 minutos e alguns acrescemos os alemães foram (sete vezes!) mais felizes.

“Vexame histórico!” – disparou o tio. “Não se pode armar uma seleção pensando exclusivamente nos talentos individuais!” – complementou Santiago. “Culpa dos alemães sentados logo atrás da gente. Nunca se deve dar as costas ao inimigo…” – ironizou a tia. Santiago sabia que haviam merecido a derrota. E, naquele momento, quando atingidos pela surpresa de um resultado absolutamente inesperado, algo marcou sua vida para sempre: Um olhar. Mas espere leitor, não se trata de um simples olhar. Santiago foi alvo do olhar mais intenso dos 27 anos de sua vida até então.

Tudo aconteceu após o apito final decretando o fim do jogo e a insatisfação da quase totalidade dos presentes. Deste momento em diante a memória de Santiago fica em câmera lenta. A movimentação no bar foi inevitável – do desconfortável lugar que Santiago assistiu ao jogo, foi acompanhado de seus tios para a porta. Estivera ali por alguns minutos. Os instantes seguintes marcarão para sempre a memória de Santiago. Contagiaram sua alma.

Era morena da pele clara. Vestia calças brancas e uma bandana verde-amarela amarrada na cintura. Estava aparentemente sozinha. Jeito de menina e sobrancelhas de uma mulher que sabe o que quer: grossas, porém bem delineadas. Os olhos eram esplendidos: verdes. Mas não estes verdes que se parecem azuis. Eram verdadeiramente verdes. Rosto exótico, cabelos negros, lisos e logos. Era completamente desnecessário estar ao seu lado para se ter à certeza da maciez de sua pele, do perfume de seu pescoço, do frescor de seu hálito. Não se sabe como tudo começou. Impossível dizer quem descobriu quem primeiro. Talvez Santiago a tenha descoberto logo após o apito final. Talvez ela tenha visto Santiago quando o mesmo entrou no bar com a bola já rolando em campo. Ou mesmo no intervalo quando Santiago foi até o balcão pegar uma cerveja para o tio e ele. O resultado foi a mais intensa troca de olhares que existiu em toda a vida de Santiago.

“Impossível tirar os olhos daqueles olhos!.” – Santiago estava embriagado com a presença daquela morena. Se olharam inúmeras vezes. Seus corpos, apesar de sempre distantes, bailavam em meio aquela multidão de brasileiros insatisfeitos. Bailavam através do olhar. Tinha-se a nítida concepção de desejo entre eles. Era, sem qualquer sobra de dúvidas, um sentimento recíproco. Definitivo.

Santiago não é nenhum moleque. Tem coração calejado com as intempéries do amor. Ha alguns anos tinha aprendido que “el no, tu ya lo tienes!” . Não negava fogo. Pelo contrário, estava sempre mais do que disposto a desafiar as barreiras femininas frente ao seu poder de sedução. Pensou inúmeras vezes em se aproximar da morena – “qual seria seu nome?”, “brasileira?”, “de onde?”, “turista ou residente em Madrid?” – as linhas de conversa eram inúmeras.

Não. Santiago percebeu algo novo. Teve a certeza de que nada poderia ser compatível com aquele olhar. Percebeu que nenhum desfecho faria aquele momento mais emocionante. Nenhuma realidade seria mais grandiosa do que as fantasias surtidas naqueles eternos 20 minutos de troca de olhares. “Santiago, vamos embora?” – a memória de Santiago agora volta ao normal. Seus tios vão à frente. O último olhar:  Ele já do lado de fora do bar, retarda alguns segundos em deixar para sempre aquela relação. Caminha cinco metros em direção a calçada. Ela o busca para mais um lance e cai no vazio. Gira o pescoço a procura-lo. Encontra-o. Não, não houve despedida – o último olhar foi tão violento como o primeiro.

Santiago vetou sua euforia em conhece-la mais. Guardou eternamente aquele olhar matador, na certeza de que aqueles instantes foram o ápice de uma fantasia – ou quem sabe, o pícaro de uma história a dois.

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Marco Antônio Guile escritor mineiro que retrata em crônicas fictícias, as incontroláveis sensações que acompanham descompassos cardíacos nos homens.  Qualquer semelhança com histórias reais é mera coincidência… © 2014.

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