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A professora de ioga me decepcionou

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Caminhando na avenida, vi uma pessoa conhecida à minha frente: a professora de ioga. Não é minha professora, não faço ioga, eu a conheço vagamente, é uma moça sempre sorridente e em seu andar parece ensinar o equilíbrio ao mundo. Eu a sigo a uma distância de uns 20 metros, mas na verdade é muito mais: como uma pessoa evoluída, ela está anos-luz à minha frente.

Mordo de inveja de quem pratica meditação, busca o equilíbrio interior, uma consciência mais elevada. Não me arrisco porque já cheguei uma pessoa francamente desequilibrada e o tempo só fez aumentar os vacilos. Tenho um certo pudor de algumas coisas, sentar no chão, acender incensos, repetir mantras, essas coisas. E não tenho orgulho algum dessa limitação.

O fato é que a professora de ioga me decepcionou. Primeiro, ela parou numa banca para apreciar uma revista de receitas. Não eram receitas de uma vida superior, mas de doces para festas. Fui conferir assim que ela seguiu seu caminho, que sou curioso que é um negócio. Quer dizer que nossa professora no fundo é uma festeira, dessas que comem os brigadeiros antes da hora do parabéns? O que um olho de sogra teria a ensinar a uma pessoa assim evoluída? No fundo, será que a professora de ioga de vez em quando manda às favas a meditação para se chafurdar numa bandeja de quindins?

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O vizinho

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O interfone interrompe nosso café da manhã. É o porteiro, comunicando com voz grave que o vizinho do 42 faleceu de madrugada. Morava dois apartamentos acima do nosso.

Nunca soube o nome do vizinho. Apenas imagino sua idade. Nem consigo lembrar de seu rosto, mal definido em algum encontro no elevador ou na garagem. Só guardei que estava sempre de camisa meio aberta e tinha um bigode branco.

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A morte e a vida pela janela

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Hoje eu não queria escrever. No entanto, talvez por isso mesmo seja preciso escrever. Ou gritar. Ou não gritar, pelo contrário: calar-se num canto. Ou dividir um vinho só falando com os olhos e brindando com a mão esquerda, já que a direita está muito ocupada, tocando com calma a mão querida.

Houve que, voltando de um café na padaria, vi uma aglomeração em frente a um prédio da minha quadra. Aproximei-mais para sapear o que era e uma moça me contou: um homem acabara de se jogar da janela. Morrera há poucas horas, a terra do jardim ainda estava revolvida. O homem caiu sobre um canteiro de lírios que nada puderam fazer. Tinha só 35 anos.

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O roxo da amora

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Na cidade tem muita sujeira, disputa e pernilongo, mas também tem amora. Amoreira deve gostar de poluição, inversão térmica, caminhão de lixo, luminoso de néon, obra do metrô, sei lá, porque aqui tem mais do que na minha terra e não era para ser assim.

Fato é que as amoreiras fizeram bem à cor roxa. O roxo nunca foi muito apreciado. Costuma aparecer em velórios, machucados, trajes de bruxas e isso não contribui para sua reputação. Até que chega essa época do ano e o roxo pinta as calçadas. Alguém dirá “suja”, mas não vamos levar esse alguém em consideração.

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Impressionante

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Caminhava o sujeito pela calçada, esburacada como andam tantas na cidade; quando não é buraco, é o cocô que algum cachorro sem dono deixou pelo caminho. Quando tem dono, este costuma recolher o cocô com um saquinho plástico e jogar no lixo mais próximo. Outros, nem isso fazem: largam o saquinho ali mesmo, um cocô envelopado, esquisito.

Andava depressa para sua idade, devia ter lá seus 70, aprendeu a caminhar no ritmo de São Paulo. Sempre me intrigou essa pressa. Por que as pessoas aqui andam tão rápido? Não é possível que 12 milhões de pessoas estejam atrasadas para seus compromissos.

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A queda

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Mas olha. Você não morreu, não morreu! E desta vez, parecia que não tinha jeito. Como pôde sobreviver a tamanha queda? Ainda por cima, desmaiou quando sentiu as mãos atadas e o chão próximo. Deu o suspiro final, colou as pálpebras, sequer sentiu o baque ou o cheiro do formigueiro. Algum apressado estendeu o lençol e fez o sinal da cruz. Certo: tecnicamente, você se foi por alguns segundos, pena ninguém ter cronometrado.

Chegou a ver a luz de que tanto falam, assistir ao filme dos seus melhores momentos (vamos combinar que não eram tão melhores assim, muitos se levantaram e saíram no meio da seção). Durou tudo isso, uma eternidade como a fila no cartório? O infinito entre a enfermeira esfregar o álcool e enfim dar a injeção? Ou foi mais como o tempo do coito das moscas? A cochilada que a gente dá no ônibus e acorda na fisgada da cabeça, disfarçando para ninguém notar?

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O colarinho do bilionário

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Eu não consigo expressar minha felicidade em ver o colarinho torto do bilionário. Está lá, na foto de capa da revista de negócios: o bilionário com seu terno bilionário, sua gravata bilionária e seu sorriso de dentes todos brancos, tudo arruinado, estragado pelo colarinho da camisa amassado, dobrado para dentro, no maior desajeito.

Quer dizer então que o bilionário é gente e sofre das mesmas humilhações que nós? Já teve espinha, cárie, já pediu baixinho, disfarçando, o palito ao garçom? Sentou na arquibancada do Pacaembú e levou uma laranjada na nuca (ou coisa pior, muito pior)? Já dançou o ragatanga no meio da festa, meio alterado por umas batidas de coco?

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Os óculos trocados

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Deve ter sido o escuro do quarto, a pressa em ir para o trabalho ou essa mania que os óculos têm de se esconder. O fato é que peguei por engano os óculos de Beatriz. Mal coloquei, houve um encontrão com a parede tão familiar, num erro de cálculo que não costumo fazer, eu, especialista em erros.

Como o mundo tem andado meio nebuloso, a princípio não estranhei. Saí de casa e, quando fui atravessar a rua, desci do meio-fio, calculei mal a altura do passo e, no perder o equilíbrio, quase atropelei um carro. Eu devia ter desconfiado, mas às 7 da matina esse verbo é de impossível conjugação.

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Posso explicar

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Calma, eu posso explicar. Nos mínimos detalhes, nas imensas coincidências, nos absurdos ou talvez fosse o caso de contratar um especialista.

Eu estava bem, só na cerveja, e alguém apareceu com uma cachaça que só tem por aquelas terras. Passei, disse que sou fraco para cachaça (o que é verdade), mas o pessoal insistiu, disse que ficava dois anos num barril de sei lá o quê, não aceitava desfeita e, como eu não queria ofender, aceitei. Sou fraco e não só para cachaça.

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Muchos pájaros en la cabeza

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Em espanhol dizem ser uma expressão. Merecia ser um verso. Quer dizer que o cidadão(ã) está com a cabeça viajando, em algum lugar difícil de precisar, absorto no que poderia ser, não no que é – pior do que com a cabeça nas nuvens: com as nuvens na cabeça.

Sonhando com tudo o que a agenda tem enorme preguiça em pensar. O que o calendário desconsidera por considerar perda de tempo. Um pecadilho a que o inspetor faria vista grossa, mas que uma declaração jamais omitiria. Um lugar que talvez fosse poupado pelos saqueadores mas jamais seria cogitado como destino turístico pela Agaxtur.

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Se você soubesse

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Se você soubesse o orgulho que me dá o que em outros causaria vergonha. Orgulho besta desse fascínio e falta de jeito com as mulheres, de às vezes travar sem reação,  incapaz de dizer alguma coisa diante de um encontro inesperado de tão esperado.

Orgulho de não saber dançar e ser conduzido pela mulher e filha bailarinas, e não fazer feio (na opinião delas, que é a que conta).

Orgulho de ter respirado o mesmo ar de Caymmi, Tom, Vinicius, Bandeira, Drummond, Rubem e da vó Guiomar. De ter puxado o pai e gostar de dormir 20 minutinhos depois do almoço – 40, se houver vinho. E dormir de sonhar, só com coisa boa, de fazer babar.

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O autógrafo impresso

em Cássio Zanatta por

O casal encarou com paciência a fila até chegar de braços dados. Ele aparentava uns 30 anos, vestia um paletó que não se usa desde 1980 e ela, nem saberia dizer a idade, só reparei que a bolsa estava murcha, vazia, parecia não haver nada dentro, como um adereço falso de uma peça de teatro. Ele me entregou o livro.

– Olá, Cássio.

– Oi. Agradecido por terem vindo. O autógrafo é para os dois?

– Isso. Para os dois.

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