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Tattoo do errado

em Coluna/Portrait por

Ela é divorciada, bem resolvida, moderna. Mãe que tem que dar conta sozinha, há quase dois anos, de tudo o que envolve a criação da filha (dia a dia, escola, casa, compras, educação, finanças). Sofia está prestes a completar quatro anos. O pai, seu ex-marido, além de não dar assistência alguma, mora há centenas de quilômetros e vê a menina de 15 em 15 dias. Tão ausente para a menina, mas distante o suficiente para Teresa, que não faz a menor questão da presença dele e que, se pudesse, não o veria mais nem pintado de ouro na frente.

Um dia desses, Tê conseguiu uma horinha pela manhã e saiu para retocar a tatuagem que fez com o nome da filha de quase quatro anos, na época em que a criança ainda era um bebê. Papo vem, papo vai com o tatuador, mostrou o primeiro desenho que Sofia fez da mãe: um boneco daqueles de pernas e braços de pauzinho e corpinho em uma bola, mas que parecia o “Senhor Batata” segundo ela.

“Que tal tatuarmos este desenho embaixo do nome da Sofia”, sugeriu o tatuador. Como toda mãe babona, Teresa topou na hora. Voltou para casa toda orgulhosa e feliz. Pegou a filha na escola e disse que queria mostrar uma surpresa.

“Olha, Sô, a mamãe tatuou o primeiro desenho que você fez de mim embaixo do seu nome. A menina, sendo o mais natural possível, como toda criança de sua idade, e sem perceber o estrago que causaria, replicou: “Mamãe, mas esta não é você, é o papai”!

Os olhos de Teresa se arregalaram. “Oi??? Não filha, é a mamãe! Lembra que você comentou em fevereiro, quando desenhou”?

Sofia insistiu: “Mamãe, este cabelo assim não é seu”. E finalizou o papo ali.

A partir de agora, Teresa tinha o Senhor Batata tatuado no braço para sempre. Para ela, o melhor era acreditar na versão que tinha como certa: que aquela era ela retratada pela filha pela primeira vez. Essa era a melhor forma de levar adiante aquela gravura, que ainda estava embalada em plástico, Nebacetin e microporo.

E o que o tal Senhor Batata pode nos levar a pensar?

Talvez a sermos menos impulsivos na hora de agir. Ou, sendo assim mesmo, a ressignificar as atitudes, os conceitos e os valores em nossas vidas. Não importa o que vai ou o que fica, o importante é o que isso representa para a gente.

Se a Teresa colocar na cabeça a última palavra da Sofia, terá que levar o peso da tatuagem para o resto da vida. Mas se quiser levar a brincadeira e a alegria da primeira lembrança que ela tem, que delícia. Basta olhar para o braço e verá para sempre o primeiro olhar da filha sobre ela, tão leve como uma brincadeira de criança.

Não importa ali o traçado, o comprimento do cabelo, se tem laço na gravata ou na cabeça. A mesma gravura terá para aquela mulher o valor que ela der. E isso, vem de dentro para fora. Depende só dela, de como anda sua autoestima, sua capacidade diária de ver aquilo como puder.

Certamente haverá dias em que ela se verá ali, e diante da tatoo, terá toda a ternura que encontrou no desenho da filha aos três anos de idade. Mas em dias de TPM, pode ser que o Senhor Batata cresça e apareça, dê voz masculina e distante ao desenho. Daquelas que ela gostaria de esquecer, mas não pode, por motivos óbvios. Batata ou não, ele é o progenitor.

Aí cabe a ela lembrar que este período passa, que os hormônios se acalmam e que ela é maior, muito maior do que está representado ali: ela é Teresa,  uma mulher divorciada, bem resolvida e moderna.

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Camila Linberger é colunista e cronista do The São Paulo Times. Comunicadora inata e observadora do comportamento humano, se algo que passar por seus olhos afetar sua mente de forma crônica, o resultado estará aqui para você ler.

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