-Smart Writers & Smart Content & Smart Readers-

Tudo inventado

em Cássio Zanatta/News & Trends por

O que a gente não inventa nesta vida. Inventa conquistas improváveis, feitos de matar herói de inveja, amores que jamais serão, arranca aplausos e suspiros; assim como é protagonista de derrotas vexatórias, dessas de vaias, tomates e safanões – o inventor dentro da gente ora é um hiperbólico, ora um masoquista.

Já marquei gol de placa na decisão do campeonato e só fui abraçado por alguns travesseiros. Tomei impulso com os braços e levantei voo, impressionando todos na calçada. Assim como tropecei na festa chique e caí no espelho d’água, tudo para que ela me desse atenção (o que prova que o inventor dentro da gente também tem suas vezes de idiota).

Já inventei lugar onde nunca estive e até um que nunca existiu. Do primeiro, lembro em detalhes; do segundo, que tinha cinco luas e nevava na praia. Já escalei o Dedo de Deus, mas só até a primeira falange (mas eu aumento e chego até a unha). Tabelei com Rivelino, toquei com Tom, Portinari posou para mim, recitei versos com Bandeira, bebi com Vinicius e todos pediram meu autógrafo, muito impressionados.

Alardeei beijo que não dei e me calei em outros que dei. Já dormi em banco de praça no frio, já dormi em areia de praia no calor e a sensação de desamparo é a mesma. Inventei que era xerife e foi um tal de bandido tremer. Fui carioca, capixaba, inglês, italiano, ator, arquiteto, cineasta e, principalmente, porta-estandarte no Carnaval de 84.

A gente inventa para poder suportar, aceitar o impossível. No mínimo, inventa de teimoso. Inventa até máquina de inventar.

Imagina que eu inventei de ir a pé de São Paulo a São José. Fui o primeiro e o último da classe. Dirigi trator, carroça e foguete e, ao toque de um botão, fiquei invisível. Fumei cigarro que passarinho não bebe. Tomei treze vodcas com Fanta só pra acompanhar a fossa de um primo. Salvei a amiga de namorar um mala (isso fiz mesmo), peguei as doenças mais cabeludas (também fiz isso aí), dei sardinha na bunda do Presidente, fui carregado em delírio pela massa, fui crucificado, mas não ressuscitei nem no 177° dia, a Lua furava nosso zinco e eu pisava nos astros distraído, para chegar à conclusão que o verso fica bom mesmo no feminino.

Já fiz isso, aquilo, aquilo outro. Acreditei no tudo inventado. Aprontei e deixei pela metade. Confirmei e não fui. Dei a ideia e saí de fininho. Decepcionei a tantos sem querer e por querer. Até desinventar já inventei. Mas que uma coisa fique bem clara. De tudo tudo tudo tudo tudo tudo: Você foi a coisa mais bonita que eu inventei.

loading...
Tags:

O The São Paulo Times® traz matérias e notícias, além de identificar tendências por meio de uma equipe de jornalistas e colunistas especializados em diversos assuntos.

Comentários no Facebook

Últimos de Cássio Zanatta

A Terra do Se

Fica lá, logo depois de Patos de Minas, e agora estou na

No escuro

Estou numa casa no meio do mato e não há luz. Andaram

Fronteiras

Foi algo do lado de lá que o chamou e você é

A mulher que ri

Nada de engraçado acontece numa fila de supermercado. Nada. Mesmo que você
Voltar p/ Capa