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Uma mancha na reputação

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Minha camisa nova ganhou uma mancha de café. Minhas camisas velhas já têm cada uma sua mancha de café (quando não têm duas). Minha camisa tem sempre uma mancha de café, até no dia em que eu não tomo café.

Já me acostumei. Diante de alguém, vejo enquanto conversamos seus olhos se desviarem dos meus para a mancha e da mancha para meus olhos, como se perguntassem como foi que aquilo surgiu. Muito bem, eu não faço a mais remota ideia. Ou melhor, faço: as manchas me perseguem. Quando me veem passando na calçada, elas saltam das janelas, pulam dos galhos, se jogam dos telhados, só sossegando quando estiverem bem acomodadas na minha camisa.

Meu dentista é meu irmão mais velho. Graças a esse singelo fato, pude perguntar a ele se meus lábios e bochechas têm algum furo por onde babar café. Ele ri e diz que não. Então fiquei sem desculpa para dar. Segue o mistério.

Estranho que eu também babo sopa, iogurte ou sorvete, nisso sou coerente. Mas esses, quando pingam, preferem ficar no anonimato, não marcam presença e não há explicação para isso, porque já pesquisei que sopas e iogurte mancham – muito. Por que então minhas roupas têm essa fixação (palavra bem escolhida) por café?

Tem seu lado bom: meus filhos riem da minha falta de jeito e Beatriz dá seu sorriso conformado, mas que, mesmo conformado, é um sorriso de Beatriz e isso tem todo o valor. Quem não deve gostar muito são esses tira-manchas que prometem eficiência total na limpeza e são humilhados pelas minhas manchas. É minha humilde contribuição contra os exageros dos departamentos de marketing.

Também venho reparando que o tamanho da mancha é diretamente proporcional ao preço da camisa e à importância do compromisso que tenho agendado. Como? Se eu não havia reparado nela antes de sair? Amigo, manchas são troços chegados num disfarce, só se revelam minutos antes do horário, quando é impossível voltar para casa para trocar de roupa. Fora que elas são volúveis, diminuem ou aumentam como bem entendem e nada posso fazer em relação a isso. Foi-se o tempo de esconder as manchas. Trago as minhas, assumo em público, não sou melhor que ninguém, embora tente esconder as mais graves, raramente com sucesso.

Muito bem. Pausa para um cafezinho. Já estou vendo uma mancha entre bege e marrom, um caramelo sutil, me esperando para saltar de cima da geladeira. No fundo, eu compreendo as manchas, as acolho como bom cristão e perdoo suas ambições. São vítimas deste mundo moderno, que condena toda humildade e cobra fama e protagonismo a qualquer preço.

Além do quê, trago manchas mais sérias na minha reputação. Mas não vamos tocar nesse delicado assunto.

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