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Vai fazer frio

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Estão prevendo muito frio para o fim de semana. Mínima de 6 graus, chuva, ventos e o escambau. Preciso checar minha provisão de porto, conhaque, meias grossas, livros e se meu cachecol não está com cheiro de mofo.

Falam daquele frio que cai feito lâmina, uma lâmina maleável, capaz de se esticar e dobrar até cobrir todo o corpo, com exceção das axilas, já ocupadas pelas mãos regeladas.

As maritacas esperam num estranho e raro silêncio. As formigas já se entocaram, respeitosas. Os cachorros peludos estão entusiasmadíssimos, ao contrário dos gatos, que têm coisa mais séria com que se preocupar.

A chegada do frio obedece a uma sequência de quatro Jornais Nacionais. No primeiro dia, ele se forma na Argentina, ganha força e, como um mochileiro destemido, sai pelo mundo. No segundo, chega ao Rio Grande do Sul, trazendo as inevitáveis reportagens de lagos congelados, campos e carros cobertos de geada. No terceiro, atinge Santa Catarina e Paraná com seus bonecos de neve fajutos, brazucas. No quarto, São Paulo, quando a frente fria se dissipa para jamais chegar ao Rio de Janeiro: lá, seria aguardada com vaias e pedradas e o frio não gosta de ser mal recebido, e assim perde a empolgação da chegada, ao contrário dos farofeiros e tropas americanas pelo mundo.

Não entendo essa definição, “previsão do tempo”. Não há nada mais arisco que prever o tempo. O sujeito na TV anuncia um mapa com umas nuvens e setas que garantem que vai fazer sol. Dia seguinte, desaba o dilúvio. E à noite, ele reaparece no noticiário com a maior cara lavada do mundo (lavada pelo toró?), sem jamais explicar ou admitir o engano, trazendo novas e sorridentes previsões para o futuro. Meteorologistas mais confiáveis eram os calos nos pés dos velhos tios.

Nem tudo se pode prever. A lotação do ônibus, a reação do cavalo, se o pernilongo vai escolher a janela do seu quarto. Também os soluços e tapas são imprevisíveis.

Certo será que o fogo assumirá um ritmo lento e uma chama predominantemente azul.

Mas mudei de assunto. Falava do tempo e do frio que virá e acabei falando em cavalos e azuis. Baixas temperaturas devem mexer com o raciocínio: congelar as sinapses, enferrujar conclusões. Faz-nos pensar em coisas estranhas, como: os parnasianos não são mais invejados porque eram obrigados a usar ceroulas. Ou: com a aposentadoria dos termômetros, toneladas de litros de mercúrio estão sujeitos a sofrer de depressão.

Não estivéssemos nos trópicos, o frio nos seria natural. Mas não: somos dependentes do calor, filhos do sol. No frio, usamos gorros coloridos que não combinam com o agasalho que, por sua vez, destoam da calça, que nunca foi apresentada às botas. Mas podemos soltar fumaça pela boca e isso é divertido.

O frio está próximo. Vou me proteger o quanto antes: calçar meias. Desenterrar flanelas. Providenciar já um conhaquinho. E sonhar um enredo bem parnasiano.

 

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