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Vou morar aqui

em Cássio Zanatta/News & Trends por

Será preciso combinar com Beatriz, claro. Pesar as coisas, contornar os contras (que serão poucos) e tomar uma boa leva de providências. Não digo que será para sempre, mas em minha vida algo vai ficar faltando se eu não vier morar aqui.

Certo que sentirei falta dos irmãos e amigos próximos. Mas minha casa estará sempre aberta para que eles venham. Maria e Pedro não estão na idade dos refúgios, mas das descobertas, querem se lançar, não se recolher, por isso talvez venham apenas umas três vezes por ano. Eu os entendo. Encontrarão camas prontas.

Um dos fortes motivos é que aqui o sol se põe no mar. Isso quer dizer que, não havendo chuva, eu e minha mulher nos sentaremos 20 minutos por dia para apreciar e conversar. Vamos nos dizer todas as verdades, pois é impossível mentir quando o sol desaparece silenciosamente no mar. Nas tardes frias, podemos nos enrolar com cobertores ou mesmo acender uma fogueira. Nesse caso, pouco diremos: o fogo costuma causar um certo hipnotismo que faz os homens se calarem para apenas observar a força e pureza de sua chama. É possível que dividamos alguma bebida.

Para tentar reaver a surpresa. Para fugir da vergonha. Para escapar do Programa Silvio Santos. Para não ter de explicar.

Outro grande motivo é que é improvável que haja dor de ouvido por aqui. Frieira, caspa e derrotas do Santos não me atingirão. Tampouco creio que aparecerá alguém de terno e gravata com uma notificação da Receita Federal dizendo que há algum engano na minha declaração de 2011. O telemarketing, as rádios evangélicas e as ofertas das Casas Bahia não costumam chegar por essas bandas.

E que outra vida eu teria nesse outro lugar? Passaria duas horas por dia em frente à TV? Teria uma dieta a base de coco, laranja e peixe? Deixaria a barba crescer? Levaria décadas para voltar a calçar sapato? Teria o hálito triste dos que bebem tanto que se esquecem de comer?

Serei padeiro, lambe-lambe, guarda de trânsito, profeta do Apocalipse e um pouco doido.

Da minha vida trarei algumas roupas, livros e essa tola compulsão de me contar. Estarei aberto a vícios novos, talvez fume um cigarro a cada dois dias, resolva usar chapéu e tenha um cachorro meio pateta que não servirá para muito mais do que se deitar perto de mim para que eu possa alisar seu pelo. Indispensável que ele tenha bastante pelo.

Não venham me dizer que o tempo e a vida por aqui passam tão rápido como têm passado. Não será assim, terei ao menos 29 minutos a mais por dia. Para caminhar de mãos dadas, respirar o ar grosso da maresia e criar calos nos pés.

Pode ser mês que vem ou daqui a cinco anos. Talvez até um dia eu venha morar aqui. Mas não agora. Preciso de tempo para arrumar alguma desculpa, me conformar e, aos poucos, suavemente, como uma folha que pousa na calçada sem intenção alguma, desistir dessa ideia para sempre.

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