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Reprogramação do cérebro pode controlar o sentimento de raiva

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Foto: Reprodução

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Um estudo de Harvard publicado em 2012 na revista Archives of General Psychiatry concluiu que dois terços dos adolescentes norte-americanos admitiu ter “ataques de raiva” que incluíam destruir propriedade, ameaças ou a prática de violência.

As inscrições no anger management course – cursos de tratamento de raiva – de ordem judicial ou voluntária estão crescendo nos EUA. Acidentes fatais em rodovias envolvendo a raiva subiram de 103 em 2007 para 255 em 2011, de acordo com a Administração Nacional de Segurança do Tráfego Rodoviário.

A pior parte da revelação da pesquisa é que os tratamentos disponíveis para aqueles com problemas de raiva permanecem sem sofisticação. Não há entrada no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais para problemas de raiva. Isso significa que ninguém pode ser diagnosticado com um transtorno de raiva generalizada.

Quem deseja buscar tratamento, portanto, precisa arcar com as consultas que não são cobertas pela assistência médica: outro aspecto que também está afetando a pesquisa. “Como não existem diagnósticos, não existem institutos ou fundações dispostas a financiar pesquisas sobre isso”, diz Karina Davidson, co-diretora do Center for Behavioral and Cardiovascular Health da Universidade Columbia. Como resultado, existem poucos estudos para entender melhor como a raiva está afetando a população.

Karina afirma que a falta de dados sobre a raiva fez com que ela se interessasse em pesquisar o tema. Ela compara a situação com a de ansiedade ou transtorno de déficit de atenção, há uma década. “Este é claramente um problema de saúde pública, mas não reconheceram maneiras de decidir qual é o perfil dos que sofrem com a raiva”.

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Esta omissão, segundo Karina, se deve em parte a um tabu social: não é aceitável ficar com raiva. Até mesmo para descrever como estamos nos sentindo nessa situação, usamos termos menos ameaçadores como “irritado” ou “aborrecido”.

Isso desencadeia um ciclo de negação: não ouvimos o suficiente sobre pessoas que lutam com a raiva, não podemos ser consolados, pois nos sentimos sozinhos, e não nos sentimos seguros ao admitir que também temos um problema.

Janie Selby, administradora das aulas de controle de raiva em Portland, Oregon, diz que tem visto uma mudança dramática desde o ano passado entre aqueles que procuram tratamento. Por muitos anos, a maioria dos participantes em suas sessões era obrigada a estar lá pelos tribunais. Este ano, a maioria decidiu por conta própria participar do grupo.

A demanda por conselheiros de controle de raiva está em alta por todo o país (EUA). De acordo com Laura Moss, especialista em gestão de raiva e diretora de comunicação da Associação Nacional de Gestão de Raiva, uma organização sem fins lucrativos sediada em Nova York, a quantidade de membros tem dobrado a cada ano desde 2008. “Nossas sessões de treinamento são sempre cheias”, diz Laura. “As pessoas estão vindo em massa até nós para pedir ajuda.”

Esse aumento da demanda pode finalmente estar levando a mais opções de tratamento baseadas em pesquisas. Um corpo de estudo sugere que seja possível reprogramar o cérebro para que possamos reagir menos impulsivamente ao que nos provoca.

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A terapia das aulas propõe que os participantes aprendam a parar e identificar as emoções quanto estão com raiva. A pesquisa sugere que este ato pode mudar a atividade cerebral de uma região primitiva impulsiva a uma parte mais controlada e evoluída. Alguns segundos de reflexão podem ser suficientes para evitar um colapso, à medida que o aluno participante fizer esse exercício com bastante frequência.

A abordagem da terapia de controle da raiva é simples: ela ensina os participantes a identificar as emoções de raiva para entender seus gatilhos.

Nos últimos anos, porém, os exercícios têm focado na reorientação do cérebro. O grupo também se orienta com leituras sobre neuroplasticidade – a ideia de que o cérebro pode, de fato, mudar em relação ao comportamento na execução de tarefas.

Em vez de apenas falar de uma explosão emocional, o grupo aprende um modelo de nove pontos de “controle de impulso”, que ajuda os participantes a recuar a partir de um lugar perigoso, analisar seus sentimentos e recuar antes de fazer algo estúpido.

Este material não é apenas uma conversa de auto-ajuda, ele está enraizado em um novo campo emergente da neurociência focado em duas partes do cérebro: a amígdala e o córtex pré-frontal.

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A amígdala processa a memória, nos ajudando a tomar decisões e a governar nossas reações emocionais. Quando estamos em perigo, parte da amígdala inunda o corpo com cortisol para aumentar nossos sentidos e a força.

Os pesquisadores acreditam que aqueles propensos a ter uma amígdala hiperreativa vêem perigo quando realmente ele não existe. Já o córtex pré-frontal é a parte do cérebro que realiza uma análise de custo-benefício das ações.

Quando se trata de raiva, estes dois pontos de massa encefálica ajudam uns aos outros. “Pode haver uma situação em que uma pessoa está com raiva e sua amígdala é ativada, mas a coisa sensata a fazer é não agir sobre ela”, explica Nelson Donegan, psicólogo da Escola de Medicina de Yale. “Se o córtex pré-frontal entra em ação, ele coloca os freios no sistema emocional. Em pessoas com déficit pré-frontal, os freios são quebrados.”

Se podemos reformular situações que nos provocam, talvez ao pararmos por um momento para pensar sobre o que aconteceu, o córtex pré-frontal retarda a reação, diz Charles Carver, professor de psiquiatria na Universidade de Miami, que é especialista em raiva. “O grande problema da raiva não é a raiva em si, é o que leva à ação.”

© 2014, Newsweek

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