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O grande equívoco

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CassioZanata

O grande equívoco

Gerson nem se lembrava do almoço marcado. Foi preciso que uma amiga lhe telefonasse, cobrando sua presença. Seria mais um encontro com a turma, falariam bobagens, contariam graças, a coisa leve de sempre. Mas um dos amigos havia convidado Juliana. Que se atrasou, estavam já quase pedindo os pratos quando ela chegou, esbaforida, arrumando os cabelos para trás. E sua aparição fez descer o raio sobre Gerson. No clarão, ele soube: estava perdido.

«Você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas.»

Gerson não queria que acontecesse. Era casado, bem casado. Tinha uma bela mulher e três filhos lindos, mais um do primeiro casamento. Estável. Feliz. Até o relâmpago despencar sobre tudo. Mas o moço (?) era bom de disfarce. Ninguém pareceu ter notado seu alumbramento. Agiu com naturalidade, cortou o frango de um jeito até displicente, reclamou com o garçom de boca cheia, só para disfarçar.

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

No parágrafo anterior há uma interrogação (?) que deve ter suscitado outra nos leitores. Tempo de esclarecer: Gerson não era moço. Ao contrário. Tinha seu bom tanto de cabelos brancos. Sua barriguinha era sempre a primeira a chegar. Uma manhã, saindo do banho, olhou-se no espelho e viu uma imagem ridícula, um homem iludido com uma paixonite de adolescente, devaneio juvenil – tome tenência, pai de família. Resolveu esquecer. Mas cadê que esquecia?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Muito pelo contrário. Gerson adormecia e sonhava com Juliana. Acordava e sonhava com Juliana. Entrava nos lugares e procurava por Juliana. Um dia ela que o encontrou. Ele não a viu chegar, sentiu uma mão em suas costas e, quando virou, deu de cara com ela. Não conseguiu dizer palavra, miseravelmente mudo. Ah, Gerson pateta, eu devia ter criado um personagem mais decidido. Agora é tarde. Não houve conversa, não houve entendimento. Mas houve o abraço. Qual o tempo razoável de durar um abraço? Dois, três segundos? Pois aquele durou seis, sete. E semanas de tontura e embriaguez para Gerson.

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento,
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

Houve outros almoços entre a turma, outras risadas, outros vinhos, até que Gerson resolveu arriscar tudo. Não podia mais. E com algum esforço – as coisas mais importantes são as mais difíceis de dizer – declarou-se a Juliana. Que se assustou muito. Disse que aquilo era um grande equívoco. Que ela nunca… deu motivo para… inclusive estava namorando… além disso, você, casado. Não apareceu mais nos almoços, inventou uma desculpa qualquer, inverossímel, não era tão boa quanto ele nos disfarces. E sumiu. Não atendia o celular, não respondia as mensagens. Zangou-se quando ele insistiu. Sumiu, puf. E isso é tudo.

E, se não estou mais na idade de sofrer,
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?

Crônica salva pela poesia de Carlos Drummond de Andrade, «Essas coisas», de As Impurezas do Branco. Que venha redimir um texto que, de original, não tem lhufas. Uma história banal, acontecida e reacontecida milhares de vezes – e na maioria delas, só na imaginação. Então, que a lindeza do poema ao menos faça com que o desconsolo de Gerson e o tempo do leitor tenham servido para alguma coisa, essas coisas.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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