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A melhor hora da Nação Zumbi

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Miguel_2

A melhor hora da Nação Zumbi

É meio inevitável que o fim de ano traga as infindáveis listas de “melhores” álbuns, filmes, livros, etc. No caso da música, o melhor de 2014 já era sabido desde o meio do ano e os últimos meses só serviram para confirmar: “A melhor hora da praia” da Nação Zumbi foi o que de melhor passeou pelos meus ouvidos nestes trezentos e sessenta e cinco dias.

Por pura curiosidade, foi neste ano também que “Da Lama ao Caos”, disco de estréia da Nação Zumbi ainda com o saudoso e genial Chico Science, completou vinte anos. Ouvi-lo novamente, no meio do caminho assistir a vigorosa performance da banda no DVD ao vivo no Marco Zero, em Recife, e fechar o dia escutando “A Melhor hora da praia” é um exercício prazeroso de perceber toda a maturidade de uma banda, que evolui, sem perder a essência, mas dando passos adiante.

“A melhor hora da praia” tem músicas que funcionam sozinhas, como a faixa-título com a participação de Marisa Monte, ou “Novas Auroras” ou ainda “Um sonho”, de inspiração em Phillip K. Dick. Mas, melhor ainda, funciona como álbum. Ouvir todas as faixas em seqüência nos oferece um conjunto coeso e harmônico. Obra de músicos experimentados e no auge da sua maturidade.

Para valorizar ainda mais o mérito da Nação Zumbi, é preciso considerar que a concorrência era árdua. Ao final do segundo tempo, Crioulo também lançou um disco em que sua maturidade fica evidente e que coloca o rap nacional em outro patamar, capaz de absorver muitas influências e não se render de jeito nenhum ao lugar comum.

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Minha lista dos melhores nacionais termina com o sensacional “Malagueta, Perus e Bacanaço” de Thiago França, inspirado na obra homônima do escritor João Antônio, dissecando a boêmia paulistana há meio século atrás (ainda que o disco seja de dezembro de 2013).

Fora daqui, o Calle 13 também lançou um álbum neste mesmo bom sentido: conceito, coerência e unidade. Assim como Criolo não teme em encontrar com a MPB, o Calle 13 flerta tranquilamente com a diversidade musical latino-americana a serviço de um discurso de esquerda, sem ser panfletário, mas principalmente esteticamente irrepreensível.

Valem notas as decepções: os novos do The Strokes e The Black Keys soaram demais como o tecnobrega paraense e parece que podemos sepultar,mais uma vez, o Rock.

No fundo 2014 termina com uma sensação de que tudo foi muito efêmero e pouco marcante, uma sensação de vazio, que apenas estes quatro bons discos preencheram com louvor.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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