A política monetária internacional sob o poder do dólar

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A partir de 1971, quando o sistema monetário internacional sofreu uma profunda ruptura – com a mudança da paridade cambial ouro-dólar – o sistema financeiro global parece se estruturar, em uma crescente, sob o a economia americana e sua moeda, o dólar. Dentro desse contexto, percebe-se que o sistema predominante desde então articula-se, ou é articulado, com base na flexibilidade cambial da moeda americana. Sua credibilidade, insulada contra ameaças econômicas e fugas constantes de capital, garante-lhe força econômica como reserva de valor e incentiva, por isso, de forma ou outra, abusos por parte do poder público americano. Destarte, a economia contemporânea sofre com fenômenos distintos em contraste com o modelo de câmbio-fixo anterior à década de 1970, pois os Estados Unidos possuem agora uma capacidade de endividamento colossal, por conta de que esse déficit é financiado por sua própria moeda e seu próprio poder de emissão e captação de recursos quando necessário.

Paralelamente a isso, o poder monetário americano revela que as oscilações na taxa de juros dos EUA refletem variações em toda a economia mundial e, consequentemente, essas manipulações de âmbito doméstico podem favorecer diretamente o financiamento da dívida pública dos norte-americanos, já que o dólar é um fator que coopta investimentos em busca de reserva de valor. Esse processo permite não apenas um grande poder de penetração do capital americano em mercados estrangeiros, mas também gigantesca liquidez e poder econômico por parte destes. Dessa forma,  até que o dólar detenha tamanho poder monetário, as relações econômicas internacionais devem estar sujeitas à sua influência.

No início da década de 1980, a constatação de que os juros americanos alcançaram taxas muito elevadas levou os americanos a realizarem um acordo com os demais países industrializados do mundo – o acordo de Plaza – que firmava um pacto para garantir que as taxas de juros desses países permanecessem acima da taxa de juros dos EUA, de modo que o dólar pudesse se desvalorizar mesmo que, em termos relativos, a taxa de juros norte-americana continuasse elevada.

Esse processo favoreceu imensamente a competitividade da indústria americana no mercado internacional, mas foi essencialmente prejudicial para os demais países, especialmente o Japão, visto que a valorização monetária se revelou desastrosa para economia dos países industrializados até então. Tal poder de barganha favorece aos americanos em situações de negociação internacional e lhes fornece um instrumento extremamente poderoso que desequilibra a balança de poder entre os Estados. Assim como sugere o economista Franklin Serrano, este e outros episódios da história econômica recente permitem-nos identificar a influência dos EUA na manipulação da economia financeira internacional em favor de seus interesses.

Serrano também cita o caso da manipulação do petróleo, que ocorreu entre meados da década de 1980 e 1990, e ilustra perfeitamente a forma como o mercado internacional é influenciado pelo dólar, levando em conta que os grandes produtores de petróleo no mundo eram fortemente pressionados pela política externa americana, no sentido de controlar a oferta de acordo com o preço de produção do petróleo americano. Isto é, o preço internacional do petróleo acompanhava a capacidade produtiva doméstica dos americanos, de modo que estes não pudessem ser afetados pela escassez ou super oferta e consequente desvalorização do mesmo. Percebe-se, literalmente, o uso arbitrário de seu poder monetário na condução da economia política internacional, além de lhes conceder amplas vantagens, em escala global, os EUA continuaram avançando com sua política econômica em detrimento de outros.

Trata-se, não apenas de concentrar a crítica ao sistema capitalista, que gira em torno dos países mais desenvolvidos, dentre eles, os Estados Unidos, mas de propor uma reflexão: a que custo isso ocorre e quem são os Estados que realmente se beneficiam do sistema político e econômico internacional da maneira como está organizado seu funcionamento? Talvez a maneira como são manipuladas as instituições nacionais e internacionais podem direcionar resultados positivos e negativos para destinos previamente configurados. Há muito existem críticos com relação ao comportamento dos EUA em relação às culturas adversas a sua. Ora, durante o século XX, a humanidade assistiu a diversos episódios em que os americanos protagonizaram cenas de conflitos. A política externa americana, ancorada no intervencionismo, teve participação direta em muitos conflitos internacionais daquele século e deste. Em nome da democracia, dos direitos humanos ou de interesses particulares?

Para tanto, propõe-se uma discussão política, desconsiderando julgamentos de valor ou dualismos de bem e mal, assim como parecem propor a política de Guerra ao Terror norte-americana, mas também como o fazem muitos de seus críticos. A anarquia nas relações internacionais, problema central debatido pelas principais teorias, continua sendo um dos principais desafios às organizações internacionais e demais agentes interessados na regulação do sistema internacional em prol da paz perpétua de inspiração kantiana. A ausência de um poder regulador central, idealmente representativo a ponto de alcançar um grau de neutralidade confiável, não está em vias de acontecer, menos ainda há previsibilidade de avanços nessa área, levando em conta que os principais atores do sistema internacional se encontram em crise econômica, ocupados demais com problemas internos para pensar e agir coletivamente. Tudo isso favorece a ação dos Estados detentores do poder e muitas de suas ações unilaterais.

De certa forma, o capitalismo, e seu ritmo cíclico de crises econômicas, parecem dar conta de afastar qualquer possibilidade de êxito nos arranjos institucionais capazes de proporcionar críticas de maior eficácia prática ao modelo hegemônico vigente. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, ainda que acusado de parcialidade em relação a economia americana por alguns, condenado por suas exigências de aperto fiscal e monetário em casos de concessão de crédito internacional por outros, parece-nos não haver melhor cenário em caso de sua extinção – tão aclamada por alguns – dado que a profundidade e interdependência das economias mundiais – principalmente no que diz respeito à interconexão de quase todos os países com a economia americana, faz-se necessário a existência de uma instituição capaz de prestar auxílio aos mais frágeis à volatilidade econômica internacional. Torna-se inteligível – mas não aceitável – a preocupação dos norte-americanos com o andamento das demais economias do globo, ainda que nada justifique o intervencionismo pragmático dos EUA em determinados contextos.

Diante de tantas e duras críticas ao FMI, muitas com argumentos bem fundamentados, pois realmente, as condições impostas aos tomadores de crédito internacional são bastante inflexíveis e exigentes, resta-nos refletir acerca de alternativas. Caso não existisse um órgão como o FMI, o sistema internacional estaria fadado a incorrer por entre todas as crises econômicas locais e subregionais? Sabemos, de antemão, que dificilmente uma organização internacional seria capaz de se estabelecer sem mínimas parcialidades de conteúdo, até porque esta precisa de financiamento para existir e são poucos, e evidentes, os Estados capazes de ofertar a estrutura econômica e política necessárias. Além disso, a influência das assimetrias econômicas e políticas existentes, a inexistência de um agente regulador e mantenedor da ordem financeira internacional e, consequentemente, a organização econômica, política e social nos legaria um futuro incerto e provavelmente instável.

Em tempos de crise, afastam-se as alternativas diplomáticas ou mecanismos de solução de controvérsias em âmbito internacional. As regras do jogo, então, parecem mais individualistas, assim como o espaço para debate diminui, e o esvaziamento das instituições internacionais é uma consequência quase sempre certa. Ora, a mudança do eixo de poder da América do Norte (Ocidente) para a Ásia-China (Oriente) vai alterar as condições de distribuição do poder econômico-político? Ou é mais provável que a hegemonia econômica e monetária – hoje ainda pertencente aos EUA e sua moeda – apenas mude de mãos e o sistema continue a privilegiar alguns em detrimento de outros atores?

 Por Luiz Renato Nais

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