A segunda (temporada) é tão difícil quanto a primeira

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A segunda (temporada) é tão difícil quanto a primeira

Nos últimos anos, a TV e o cinema trocaram de papéis. Enquanto, os filmes caim de cabeça nas franquias, produzidas em linha de montagem e adaptando quadrinhos e livros, as séries de televisão revelavam novos roteiristas, enfrentavam temas espinhosos, atraiam bons atores e contavam boas histórias originais. Foi neste contexto que apareceram séries especialmente boas como “Orange is the New Black”, “ True Detective” e “Fargo”. Porém, tão difícil quanto emplacar uma primeira temporada elogiada pela crítica e pelo público, tem sido manter a qualidade e garantir uma segunda temporada em mesmo nível.

A primeira série a derrapar na tarefa foi justamente “Orange is the new black”. Depois de uma temporada inicial com maestria, a história da jovem filhinha-de-papai que vai parar em um presídio começou a escorregar, sem conseguir manter o mesmo interesse, arrastando histórias com menos força e dependendo da atuação individual de suas atrizes. Ainda assim, “Orange” está em sua terceira temporada, mas penando para se manter viva.

A vítima mais recente e mais abatida da síndrome da segunda temporada foi “True Detective”. A primeira sessão terminou com o criador Nic Pizolatto urgido ao Olímpo dos escritores e com ares de gênio. A promessa de que a próxima sessão teria novas histórias e personagens, partindo do zero, só demonstrava ousadia e confiança. Até o anúncio do elenco, com bons atores, tudo parecia bem. Mas nada deu certo. A série virou exatamente aquilo que em sua versão original era um antídoto: apenas mais uma série policial. Pior, em vários momentos, o espectador é levado a crer que teremos uma mudança de rumo surpreendente, mas as saídas terminaram óbvias ou frustrantes, enquanto faltava a profundidade aos quatro personagens principais que sobrava com louvores na versão anterior. Provavelmente teremos uma terceira temporada, mas muito mais como uma “última tentativa” de redenção do que por merecimento.

O fracasso de “True Detective” joga as atenções sobre “Fargo”, multipremiada em sua primeira exibição e que também irá “zerar o jogo”, introduzindo outros personagens e mudando o cenário para trinta anos antes da história exibida no ano passado. Se errar na mão, põe em cheque a sua continuidade.

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Talvez as três séries tenham sido contaminadas pela boa recepção e acreditaram na suposta genialidade de seus autores. Excesso de confiança que não resultou em boas narrativas. São como aquelas bandas de um disco ou um sucesso, que atraem a atenção para o próximo trabalho e acabam  condenadas ao ostracismo após a frustração. Talvez tenha faltado atenção justamente para aquilo que caracterizou as novas séries: atenção preciosa com cada detalhe, do roteiro à fotografia, da interpretação à trilha sonora. No caso de “Orange” e “True Detective” terminaram soando como cópias de si mesmos. Como uma turnê caça-níqueis de uma banda aposentada. Resta torcer para que a lição tenha sido aprendida e que a receita original – ousadia com zelo técnico – seja retomada.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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