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A sociedade dos novos poetas mortos

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Camila

A sociedade dos novos poetas mortos

“Cumpriram sua sentença. Encontraram-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a Terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre”, sentenciou Ariano.

E percebeu Rubem Alves, que sentava ao lado: “Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro”. E começaram assim as divagações entre os poetas, refletindo aqui e ali sobre o que viveram:

“A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente”, refletiu Rubem. “A tarefa de viver é dura, mas fascinante”, completou Suassuna.

Ouviram então passos por perto. Lá estava João Ubaldo Ribeiro, que ouvindo a conversa, juntou-se aos dois, acrescentando: “Fiz tudo que me deu na cabeça, não quis saber de limitações. Eu não pequei contra a luxúria. Quem peca é aquele que não faz o que foi criado para fazer”.

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“Concordo com você, Ubaldo”, afirmou Rubem: “Se as pessoas aprendessem a gostar, mas gostar mesmo, das coisas que devem fazer e das pessoas que as cercam, em pouco tempo descobririam que a vida é muito boa e que você é uma pessoa querida por todos”.

Todos se calaram. Pareciam querer entender onde estavam e o que acontecia ao redor. Ainda um pouco perplexo com a nova “situação”, João Ubaldo diz: “O fato é que, nas vizinhanças de um poleiro d’almas, o que ocorre é nada, nada por todos os lados, uma infinitude de nada inimaginável em toda a sua inextensão. Nada e mais nada e mais nada e mais nada ali se vai aglomerando, até o ponto em que se acumula tanto nada que ele se transmuta num nada crítico e desta maneira surge algo desse nada”.

Notando uma certa irritabilidade do companheiro, Ariano tenta consolá-lo: ”Calma, Ubaldo, tudo passa e o tempo duro tudo esfarela”. E continuou: “Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver (se você acredita que ainda estamos vivos). Eu digo sempre que das três virtudes teologais chamadas, eu sou fraco na fé e fraco na qualidade, só me resta a esperança. Eu sou o homem da esperança”, e sorriu.

“A esperança é uma droga alucinógena”, provoca Rubem, que havia ficado calado, só ouvindo os dois.

“Mas você há de convir comigo, meu amigo, que o otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”, provoca Suassuna.

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Mais um instante de silêncio se deu. Ficaram ali, por algum tempo contemplando o jardim à frente, repleto de flores e pássaros. Até que Rubem começa a relembrar as histórias de amor que viveu e diz: “Todo jardim começa com uma história de amor, antes que qualquer árvore seja plantada ou um lago construído é preciso que eles tenham nascido dentro da alma. Quem não planta jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles”.

“E quantas histórias de amor podemos viver em uma única vida?”, provoca Ubaldo. “Em tese, somos capazes de nos apaixonar por tantas pessoas quantas sejamos capazes de lembrar, o limite é este, não um ou dois, ou três, ou quatro, ou cinco, ou dezessete, todos esses números são arbitrários, tirânicos e opressores”, completa.

“Nós somos como as lagartixas que perdem o rabo: logo um rabo novo cresce no lugar do velho. Assim é com a gente: logo a vida volta à normalidade e estamos prontos a amar de novo, além do quê, amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar” “completou Rubem.

E falando em vôo, como foi o de vocês pra cá?, perguntou um deles.

“Toda separação é triste. Ela guarda memória de tempos felizes (ou de tempos que poderiam ter sido felizes….) e nela mora a saudade. A saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar. Mas Deus existe para tranquilizar a saudade. Deus é alegria. Uma criança é alegria. Deus e uma criança têm isso em comum: ambos sabem que o universo é uma caixa de brinquedos, respondeu Rubem. “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses. A alma é uma borboleta…
há um instante em que uma voz nos diz que chegou o momento de uma grande metamorfose…”, completou, lembrando do caminho que percorreram para esta “nova etapa”.

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E aí o coração de todos se apertou. E deu vontade de falar com aqueles que amam e que ficaram para trás…

Um deles comentou: “Ai se eu pudesse escrever cartas para dar notícias do lado de cá”…

“Cartas de amor são escritas não para dar notícias, não para contar nada, mas para que mãos separadas se toquem ao tocarem a mesma folha de papel. Aquilo que está
escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a
memória ama fica eterno”, poetizou Alves.

Calaram-se. E o triplo silêncio aconteceu em questão de dias. E o mundo ficou sem seus poetas, mas com suas poesias. E o “poleiro d´almas” de Ubaldo está mais alegre com seus novos integrantes. Foram para perto de Deus, para quem acreditar. Aquele “Deus que vê o mundo com os olhos de uma criança, que está sempre à procura de companheiros para brincar”, conforme Alves. E levou três!

*Este texto foi estruturado com citações dos poetas Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro e Rubem Alves, que faleceram nos últimos dias, os mais novos membros da Sociedade dos Poetas Mortos. Aqui fica a minha homenagem aos mestres.

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Camila Linberger é relações públicas, sócia-diretora da Get News Comunicação, agência de comunicação corporativa e assessoria de imprensa sediada em São Paulo. © 2014.

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