Armas para mulheres indianas: autodefesa ou exploração?

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O governo indiano lançou uma nova arma projetada para as mulheres se protegerem contra estupros e agressão sexual. Para enfatizar a intenção do novo programa, uma pistola calibre 32 chamada Nirbheek, sinônimo de Nirbhaya, o apelido dado à jovem estudante de medicina morta em um ônibus em Nova Délhi, no final de 2012, vítima de um estupro coletivo. Nirbhaya e Nirbheek significam “destemido” na língua Hindi, sugerindo fortemente a motivação para o surgimento da pistola.

O lançamento da arma – bem como o seu nome – suscitou tanto aprovação quanto indignação em toda a nação. Ela não é apenas uma arma especificamente voltada para as mulheres, embora os homens também possam comprá-la, mas também é embalada dentro de uma caixa de jóias atraente de cor marrom. ”A arma Nirbheek é pequena, leve – pesa apenas 500 gramas – e pode facilmente caber em uma bolsa de mulher”, disse Abdul Hameed , o gerente geral da Fábrica Indiana de Material Bélico, que fabrica a arma na cidade de Kanpur, à BBC. Ele também elogiou: “a arma é fácil de manusear e pode atingir seu alvo com precisão até 15 metros”, acrescentou. Referindo-se ao pacote atraente da arma, Hammed comentou que “as mulheres indianas gostam de seus ornamentos”.

Com relação ao nome controverso da arma, Hameed explicou: “Nós geralmente pedimos aos nossos funcionários para criarem nomes aos novos produtos. Recebemos uma série de sugestões e decidimos por ‘Nirbheek’. Nós acreditamos que as mulheres que carregarem esta arma se sentirão sem medo”.

Ram Krishna Chaturvedi, chefe de polícia de Kanpur, também apóia o programa de armas. “É definitivamente uma boa ideia”, declarou à BBC. “Se você tem uma arma licenciada, ela aumenta a sua autoconfiança e cria o medo na mente dos criminosos”, acrescenta. Pratibha Gupta, uma dona de casa e estudante que gostaria de comprar a arma, disse: “Se o homem sabe que eu tenho uma arma, ele hesitará em me tocar”.

Mas a Nirbheek não é tão acessível, custa em torno de 2 mil dólares. Para colocar esse número em perspectiva, considere que entre 2011 e 2012, a renda per capita em Nova Délhi (uma cidade com altos índices de violência sexual contra as mulheres) foi de 3.624 dólares, ou seja, as vendas da arma seriam restritas às classes média e alta. Presumivelmente, a jovem infeliz que postumamente deu seu nome para a arma não poderia adquirir uma.

No entanto, o preço elevado não é a única questão relacionada com a arma que tem indignado e chocado os críticos do programa, em especial ativistas de direitos das mulheres. “Estou horrorizado, chocado e indignado”, disse Binalakshmi Nepram, fundador da Women Gun Survivors Network no estado de Manipur, no nordeste da Índia, à BBC. “É ridículo as autoridades dizerem: “Ei, moça, há uma nova arma que te fará mais segura’, é uma admissão de fracasso da sua parte”. Como nos EUA, os grupos de controle de armas na Índia afirmam que a posse de armas entre o público só gera mais violência, em vez de prevenir tais atos. “Nossa pesquisa mostra que uma pessoa é 12 vezes mais suscetível de ser morta a tiros se ela está carregando uma arma quando é atacada”, acrescentou Nepram. “Na Índia, a renda anual da maioria das pessoas é menor do que o custo da arma. Portanto, sugerir que esta arma pode fazer as mulheres mais seguras é bizarro”, finaliza.

Nepram disse ainda à CNN que as armas não ajudarão a proteger as mulheres indianas. “Nós não acreditamos que a arma seja uma solução para acabar com a violência sexual”, declara ela.

Ruchitra Gupt, uma ativista dos direitos das mulheres e fundadora da Apne Aap Women Worldwide, também condenou a nova arma. “Temos que desafiar a cultura da dominação e da violência através da não violência, não através da introdução de mais ferramentas de violência”, comenta Ruchitra.

Os ocidentais podem se surpreender ao saber que a Índia – a terra do hinduísmo, budismo, yoga, sadhus e Mahatma Gandhi – já possui uma enorme e vibrante cultura de armas. Além disso, a Índia tem mais armas em mãos de particulares do que qualquer país do mundo, exceto os EUA.

Além disso, ao contrário dos EUA, adquirir legalmente uma arma na Índia não é fácil – além do custo exorbitante, os candidatos precisam de uma licença na qual oferecem uma explicação por escrito dizendo o porquê de quererem uma arma, além de um exame médico. Os candidatos também devem possuir um histórico de vida impecável e, mesmo depois de todas estas condições, só podem comprar uma arma não automática. Além disso, praticamente todos os locais públicos na Índia – escritórios, shoppings, mercados e cinemas – servem como “zonas livres de armas”. Assim, dado que o grupo que vitimou a jovem Nirbhaya após sair do cinema de um shopping, em um ônibus de volta para casa, não poderia legalmente carregar uma arma durante o passeio. Na verdade, se ela atirasse e sobrevivesse ao ataque, Nirbhaya poderia ter sido presa.

Como muitos membros da Associação Nacional do Rifle dos EUA, Sharma declarou que os cidadãos comuns na Índia têm o direito de possuir armas e que os políticos (a maioria dos quais têm guarda-costas fortemente armados) estão praticando uma forma bruta de hipocrisia. “Leis de armas na Índia são muito rigorosas, mas, quando se aplica a um cidadão comum a exigência de uma licença, ele é quase tratado como um criminoso”. “Isso é um absurdo. Então você tem que ser estuprada, saqueada ou ser morta para obter uma licença? Os políticos, no entanto, têm toda a segurança que precisam. Acho que se a posse de armas legal é incentivada, o crime reduzirá. Os criminosos não entrarão em lugares onde sabem que há proprietários armados. Eles irão enfrentar a resistência armada, o que desencoraja”.

© 2014, IBTimes

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