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Como Cristopher Nolan superou Spielberg

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Como Cristopher Nolan superou Spielberg

As gerações de cineastas, mesmo distintas no tempo, tem suas características comuns. Sempre haverá os diretores marginais que permanecerão fora do sistema; haverá aqueles que começam marginais e terminam engolidos pela indústria cultural, normalmente com vantagem para esta; e aqueles que encontram o equilíbrio entre a arte e a indústria.

Na sua geração, Steven Spielberg já esteve neste terceiro grupo. A arte neste caso não significa necessariamente a beleza estética em “escrever” visualmente o filme, mas especificamente em saber contar boas histórias. Spielberg é da mesma geração que Francis Ford Coppola, Martin Scorcese e Brian de Palma. Mas, era o patinho feio da turma, considerado muito comercial e, ao contrário de seus contemporâneos, sua influência não era o cinema europeu, em especial o francês, mas a cultura pop norte-americana dos anos 50 e 60.

Só que enquanto a megalomania de Coppola o derrubou, quase na mesma proporção em que as drogas atingiram Scorcese e a mediocridade bateu em De Palma, Spielberg, junto com George Lucas (ex-assistente de Coppola), ganhou rios de dinheiro e a simpatia do grande público, ultrapassando os círculos restritos. E alcançou este patamar fazendo o bom cinema: “Encurralado”, “Tubarão”, “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” e “ET” são bons filmes sem que tenham a estatura de uma obra genial como “Cidadão Kane”.

Porém, o diretor achava que era preciso ser levado a sério e para ele, isto era sinônimo de ser reconhecido pela Academia de Cinema norte-americana, mais precisamente receber os prêmios da Academia, o Oscar. “A Cor Púrpura”, “Império do Sol” e “Amistad” são bons filmes, não necessariamente memoráveis, e claramente pretendendo faturar alguma estatueta. Só que como diretor de atores e como organizador da fotografia fílmica, Spielberg é apenas razoável, ás vezes até abaixo da média Apesar de finalmente ter alcançado o Oscar com a “A Lista de Schindler”, seu currículo a partir da segunda metade dos anos 90 é chatíssimo. Caiu da terceira para a segunda categoria.

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Por sua vez, Cristopher Nolan, agora, demonstra mais solidez e, possivelmente, talento para ir muito mais longe do que Spielberg. Se não financeiramente, certamente como cineasta. Para começo de conversa, Nolan, junto com seu irmão Jonathan, habitualmente seu co-roteirista, é um excelente escritor de histórias. Vide “Amnésia”, o suspense contado de trás para frente, que o revelou. Assim como Spielberg recuperou os antigos filmes de aventura dos anos 40 na construção de Indiana Jones, Nolan resgatou, ou melhor regenerou, o Batman na trilogia “O Cavaleiro das Trevas”.

Só que Nolan é um diretor mais completo. Primeiro, porque sabe dirigir atores. Ao contrário de Spielberg que prefere os galãs e canastrões, Cristopher Nolan sabe como arrancar as melhores performances. Vide Heather Ledge, que recebeu um Oscar póstumo por seu Coringa. Além disso, domina muito melhor a fotografia, como se percebe em sua preferência em filmar em 70 milímetros. E se John Williams transformou suas trilhas para os filmes de Spielberg em ícones pop, Hans Zimmer escreveu épicos para Nolan.

Tudo isso fica evidente em “Interestelar”. Nolan que rejeitou filmar “A origem” e mesmo Batman em 3D, só recorre a esta técnica agora porque ela pode se transformar em ferramenta narrativa. É verdade que o desfecho exige um pouco de boa vontade e cumplicidade do espectador, mas é difícil que o diretor já não tenha nos ganhado antes para isso. Os outros pontos também estão todos lá: a interpretação de Matthew McConaughey e a trilha de Zimmer. Não é à toa que a primeira referência que vem à cabeça de quem assiste é de um clássico, “2001, uma Odisséia no espaço” do genial Kubrick. Curiosamente, “Interestelar” foi escrito por Jonathan Nolan para Spielberg, que depois abandonou o projeto.

Por ser mais completo, Nolan provavelmente terá uma carreira mais sólida e extensa. Quanto a Spielberg, seus próximos planos são um eterno “loop” do cineasta que foi um dia, com novas sequencias de Gremlins e de Indiana Jones. Nada de novo a acrescentar ao cinema. Ao contrário de Cristopher Nolan.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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