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Como os diretores ganharam e perderam Hollywood

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Passou mal percebido pelo mercado editorial brasileiro um grande livro sobre cinema: “ Como a geração sexo, drogas e Rock n’ Roll salvou Hollywood” de Peter Biskind (Editora  Intrínseca), sobre o cinema norte-americano no final da década de 60 e toda década de 70. Há pouco tempo publicado aqui, mas escrito originalmente em 1998. O título original faz referência a dois expoentes do período, ao mesmo tempo em que faz trocadilho com o temperamento dos biografados: “Easy Riders, Ranging bulls” ( no Brasil, “Sem Destino” e “Touro Indomável”).

O livro é resultado de uma intensa pesquisa e de horas de entrevistas, em que os bastidores de Hollywood são escancarados sem pudores. Muitas vezes o desfile de nomes, especialmente dos menos conhecidos, se torna quase impossível de ser acompanhado. Mas nada que impeça uma leitura de um só fôlego. Além disso, a tradução é de Ana Maria Bahiana, a mais experiente correspondente brasileira em Hollywood, o que por si só já confere um carimbo de referência ao livro.

Ainda que a contracultura varresse os Estados Unidos desde as ondas bitnik e hippie, na música e na literatura principalmente, o cinema do final dos anos 60 ainda seguia a estrutura de trinta anos atrás. Neste modelo, o Produtor era o grande sujeito fílmico, controlando desde o processo e o Diretor era um funcionário como o iluminador ou o motorista. Tanto que poucos diretores recebiam autorização dos estúdios para entrarem ou trabalharem na sala de corte, onde o filme era editado e ganhava sua versão definitiva.

Enquanto este modelo naufragava em terras americanas, do outro lado do Atlântico, o cinema europeu despontava com um modelo extremamente autoral, impulsionado pelos franceses da Nouvelle Vague, especialmente François Truffaut. Capitaneados por Francis Ford Coppolla, uma nova geração de cineastas conseguiu assumir o controle criativo dos filmes, sendo ao mesmo tempo bem sucedidos nas bilheterias e nas colunas de críticas.

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Com egos proporcionais às bilheterias, o reinado dos diretores durou uma década. Aclamados e incontestáveis, embarcaram em aventuras caras e incontroláveis, como o estúdio American Zoetrope de Coppolla ou filmes que se tornaram fracassos milionários como “O Portal do Paraíso” de Michael Cimino.

Nos poucos momentos em que se arrisca pela análise fílmica, Biskind chama a atenção como filmes supostamente inovadores como “O Poderoso Chefão” e “O Exorcista” trazem mensagem absolutamente conservadoras. O capítulo sobre “Star Wars” é revelador de como George Lucas pretendia fazer um filme “no estilo Disney”, para crianças de até 12 anos, enquanto hoje se tornou cânone para nerds fanáticos de meia-idade (além da justiça poética de ter a franquia vendida agora para a empresa de Mickey Mouse).

Mesmo inovadores e criativos, a forma como os diretores tomaram Hollywood de assalto, substituindo os velhos produtores por eles mesmos, resultou numa nova crise no início dos anos 80. Em sentido contrário, coube aos dois integrantes menos valorizados desta comunidade, porque eram considerados muito comerciais, sobreviverem e reerguerem a indústria americana: George Lucas, ex-assistente de Copolla, e Steven Spielberg, um dos poucos realizadores oriundo da TV e não das faculdades de cinema. E, novamente, os filmes “arrasa-quarteirões” ocuparam a programação dos cinemas, relegando o cinema autoral e reduzindo outra vez o poder econômico e criativo dos diretores.

Por Miguel Stedile

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