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Crômicas: Castigo e Crime

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CarlosCastelo

Castigo e Crime

Recesso de fim de ano.

Hora de abrir os horizontes, fechar as malas e fugir da cidade.

Aos poucos, São Paulo vai ficando cheia de desvãos.

A família de Pires o esperava há uma semana numa pousada.

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Ele, esposa e o pequeno Diego passariam as festas numa praia no litoral norte, velho sonho.

Homem metódico, quase jesuítico, Pires começara a se preparar para a viagem com 72 horas de antecedência.

Pagou diarista para deixar casa e roupas em ordem. Separou contas de fim de ano numa pasta. Foi à internet, agendou pagamento.

Só que, ao separar seus pertences para colocar na mala, olhou para o beiral da janela do quarto de Diego e quem estava lá?

Berry, o peixe beta.

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Pires teve um sobressalto, uma quase hemiplegia, ao ver o bichinho de estimação do filho ali nadando, em sua felicidade bronca e pisciana.

Passariam uma semana fora de casa. Todos, inclusive empregada, estariam comemorando as festas.

Quem trocaria a água e colocaria aqueles farelinhos amarecelidos para Berry comer? Faltavam ainda 48 horas para a partida e nada lhe ocorria sobre o que fazer com o animalzinho.

Foi à chopada do escritório. E mesmo ali, entre os colegas, não lhe saía da mente o maldito peixe.

“Sim, talvez só restasse mesmo parar de alimentá-lo a partir dessa madrugada. Não trocar a água o forçaria a entrar em pré-coma morrendo antes da viagem. Porque se ele morre durante a semana em que estivermos na pousada o cheiro dentro de casa fica insuportável. Diego voltando no comecinho de janeiro. “Cadê o Berry, cadê o o meu peixinho lindo e querido, papai?” E o bicho podre e esfacelado dentro do aquário. Não! Tudo menos isso. É mesmo o caso de ir assassinando Berry ao poucos. Sem comida hoje, água suja amanhã e um abraço”.

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Chegou embriagado em casa e foi direto ao beiral. Berry nadava alheio a tudo.

Sua cor estava ainda mais bonita, as manchas vermelhas contrastando com o lombo azul.

“Vamos ver amanhã o dia inteiro sem refeição”, pensou Pires.

Deitou-se.

Vieram direto a seu subconsciente pesadelos terríveis onde se afogava num rio barrento. Na manhã seguinte saiu direto do quarto para o escritório, sem nem olhar para o peixe.

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Procurou se enfiar na rotina de final de ano, voltando apenas às suas reflexões quando estava no trânsito, já de noite, voltando do escritório.

“Deve ter morrido. Mas o que é para o universo a eliminação de um estúpido peixe beta? Um animal que vive num vidrinho diminuto de 15 X 10 centímetros? E não me venham com o discurso clássico de que o bater das asas de uma borboleta na Amazônia provoca um terremoto no Arizona. Física quântica, essa balela toda. Berry morreu, antes ele do que eu. Não mereço um castigo desses depois de ter ralado 355 dias no ano”.

Abriu a porta, correu ao beiral e, ao contrário das expectativas, Berry estava vivinho da silva. E ainda por cima com uma carinha pidona de “quero raçãozinha”.

– Desgraçadoooo! – berrou – eu vou te mostrar quem manda nessa birosca!

Pegou o aquariozinho com brutalidade e, mesmo sabendo que as trocas de água não devem ser feitas direto na torneira – para evitar um choque térmico – jogou o líquido frio sobre Berry. Este nadou em desespero até que o jorro parasse de fazer redemoinho.

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Pires gritava:

– Morre! Morre! Morre!

Largou tudo sobre a pia do banheiro, caiu exausto na cama e roncou até de manhã.

Chegara o dia da partida.

Pires pegou a mala e foi até o banheiro lançar os restos mortais de Berry no lixo.

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Mas… de novo a carinha de “me dá comida”, agora na água limpa e oxigenada.

Céus, só podia estar pagando um grande pecado. E o pior era que a chave se invertera. Imaginar-se jogando Berry vivo na privada, como chegara a tramar ontem, era algo que lhe dava engulhos.

Um sentimento de piedade se acercou dele. Era preciso dar o peixe, símbolo do cristianismo primitivo, a quem pudesse assegurar seu destino.

Foi o que fez.

Colocou a bagagem no porta-malas e saiu, aquário de Berry numa das mãos, caçando quem pudesse abrigá-lo.

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Rodou com o carro cerca de meia hora. Até encontrar um menino sujo e maltrapilho no semáforo.

– Quer esse peixinho, filho? O nome dele é Berry.

– Berry? – os olhos do pivete se encheram de alegria – Deixa eu ver?

– Toma, fica com ele – disse Pires, voz embargada.

O menino pegou o presente com enorme satisfação. E, sem perda de tempo, meteu os dedinhos na água, puxou Berry pelas nadadeiras e o comeu.

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Carlos Castelo. Escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. © 2013.

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