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Crômicas: Zana se foi

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CarlosCastelo

ZANA SE FOI

A rata Zana morreu. Meu filho foi o contemplado num sorteio da escola e a trouxe para casa numa caixinha de papelão. No começo se encantou por ela. O tempo foi passando, a paixão cedeu e sobrou pra mim e pra esposa.Semanas depois a esposa ficou grávida, não era recomendável tocar nesse tipo de animal em estado interessante, e sobrou pra mim.

Confesso não ter gostado de, todo dia, ter de lhe dar comida, trocar a água e colocar objetos que ela pudesse roer. Além disso era preciso trocar a palha da gaiola e colocar um pozinho-banho regularmente.

Inicialmente fazia as tarefas sem se sequer olhar pra ela. Mas depois comecei a perceber que, quando eu entrava em seu ambiente, Zana ficava de pé e esfregava as patinhas. Parecia feliz ao me ver.

Depois de alguns meses reagia do mesmo modo, mas só ouvindo minha voz. Começamos a conversar. Ela sempre muito calada, mas eu comecei até a fazer desabafos. Os vizinhos deviam achar que eu era catatônico. Era entrar na área de serviço e já começava a parlamentar com a roedora em voz alta.

Zana acabou tornando-se uma espécie de Carlos Castelo em forma de esquilo da Mongólia. E eu, uma espécie de Zana humano.

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Espero que não me tomem por um abjeto zoófilo, mas não tenho vergonha de dizer que ela me conquistou.

Neste fim de semana deixei-a agonizante na gaiola e viajei pro Nordeste. Ficava toda hora no whatsapp perguntando à minha mulher se ela tinha apresentado alguma melhora. Mas ela não se recuperou.

Hoje vi a gaiola vazia e tive de pensar no ministro Mantega pelado pra não me emocionar na frente de minha filha.

É a prova de que o amor é tudo. Até quando você se afeiçoa por uma rata qualquer.

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Carlos Castelo. Escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. © 2013.

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