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Descontentar-se com muito

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 MONO

Não sei se isso acontece em outros estados, mas São Paulo tem um personagem conhecido de todo mundo que já pegou a estrada: os Chapas.

É fácil encontrar um deles na beira das vias, com placas escritas à mão, esperando por caminhoneiros que precisem de ajuda para carregar e descarregar o caminhão ou de um guia para andar nas ruas da cidade.

Outro dia, parado em um congestionamento sobre a Anhanguera, vi um Chapa chegando para trabalhar.

Chegou à pé, colocou sua placa no galho de uma árvore. Trazia um balde com água. Começou a molhar o cabelo, depois se penteou. Começou uma rotina de exercícios. Alongou os braços, fez alguns agachamentos, se pendurou no galho de uma árvore e fez algumas barras. Tirou a camiseta e colocou uma camisa, já bem gasta. Se penteou de novo e estava pronto pro trabalho, já acenando pros motoristas.

Esse cara não faz parte do que costumamos chamar de sociedade. Não só pelo lugar onde ele estava, mas pela condição em que vive e trabalha, ele fica às margens.

Não é pra ele que são feitas as propagandas, ele não se importa se a política econômica aumentou ou diminuiu os juros, ele não fica conectado com os jogadores da seleção pelo seu celular, não tira selfies no espelho da academia e nem faz muita ideia de qual dos carros que passam ao seu lado é o mais novo, mais completo, mais moderno. Talvez ele saiba, mas isso não muda tanto a vida dele.

A sociedade, o mercado, a política, o deixam à parte. Mas se você perguntar para ele como é a vida, a chance dele responder que é feliz é grande. Não porque ele não saiba que poderia ser muito melhor, mas porque, aparentemente, ele tenta tirar o melhor daquilo que tem. Inclusive da sua academia improvisada.

O mundo gira em torno das pessoas de 18 a 45 anos. É pra eles que tudo é desenhado. Eles tem as melhores oportunidades, as melhores ofertas, as melhores tecnologias. E no entanto, o que mais se vê entre essas pessoas é reclamação, mau humor e desapontamento.

Você pode dizer que, no caso dele, a ignorância é uma bênção. Mas, para quem está acostumado a ter o mundo girando em torno de si, me parece fácil usar esse mesmo princípio para julgar os outros.

Não sou a favor da teoria de que devemos ser sempre gratos e felizes por aquilo que temos. Acho que sempre devemos querer mais e fazer o possível por isso, ao invés de nos contentarmos com pouco.

O problema é que parece que cada vez mais estamos nos descontentando com muito.

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Diogo Mono. Redator publicitário, tenta ser escritor, será pai de família e continua sendo um observador das coisas do cotidiano.
© 2014

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