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É preciso lavar o rosto

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Assim que a gente acorda, lava o rosto. Embora isso não adiante muito. Lavar o rosto é o que se tem a fazer depois de desligar o despertador e arrastar os pés que já aprenderam a ir ao banheiro sem precisar da nossa consciência. A água que escorre ajuda a acordar, a frieza da água colabora, mas num susto, quase choque que eu nunca soube se faz bem.

     Lavar o rosto não limpa toda a sujeira. Por mais que se esfregue e insista e esfregue. Mais espuma faz o sabão, mais inútil o gesto parece. A nódoa persiste.

     Lavar o rosto refresca, mas não alivia. Nos dias quentes, é um prenúncio do que pode um bom banho. Nos frios, é quase sacrifício. A remela vai embora, a baba surgida no sonho bom desaparece, mas não é pouco?    

     A vergonha não escorre pela pia, as dores não descem pelo ralo. Como ele está meio entupido, a água escoa com dificuldade, forma uma poça turva, rodamoinho de água com sabão, um fio ou outro de cabelo e restos invisíveis de pele. 

     Um pouco de água na boca para bochechar. A língua está pastosa e deve-se resolver isso.

     A gente fecha a torneira e apalpa a parede em busca da toalha, enquanto olha no espelho o rosto molhado, gotejado, distorcido, e não se ficou um milímetro mais bonito. Procura se lembrar do que sonhou. Isso dura dois segundos, a gente esquece e a vida segue. E segue em círculos: porque depois da manteiga, do jornal, de ir à privada, deve-se lavar as mãos novamente. Daí para lavar o rosto é quase máquina. Quem sabe agora?

     Sem querer ser chato, a toalha em que você limpa o rosto também está mais suja do que você imagina. Mas sejamos justos: o sabonete foi trocado ontem, está novo, concreto, uma barra rosa intocada. É uma esperança.

     Lavar o rosto. Pegar metrô. Ler nos intervalos. Obedecer às horas. Todo dia isso, e não é de agora.

     Ainda está escuro. Você olha pela janela e encontra uma única luz acesa no prédio em frente, dá bom dia em pensamento para o irmão também acordado. Deus ajuda a quem cedo madruga, companheiro, é preciso acreditar nisso, mesmo que andemos meio descrentes.

     Vê sua família chegar aos poucos, um por um, à mesa do café. Beija os cabelos ainda quentes e espantados. Sua pele está fresca, ninguém parece reparar, estão todos com muito sono, operando por instrumentos. Decerto não lavaram o rosto.

     Eu que não sou doido de puxar assunto. Isso não é hora de acordar, quanto mais de conversar. As bocas sim, dizem, mas falam apenas de pão mastigado e do leite e café sorvidos. Quando estaremos todos acordados?

     Lavar o rosto, secar o rosto. Só então oferecer a outra face.

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