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Kurt Cobain ainda cheira a Teen Spirit

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Há 25 anos, o Nirvana lançava seu primeiro LP, “Bleach”. Cinco anos depois, o vocalista Kurt Cobain cometia suicídio. Não foi sua morte precoce que surpreendeu na época. Bastava acompanhar a carreira da banda para imaginar o final que ela tomaria. O que talvez tenha surpreendido tenha sido o quão rápido foi, afinal, mal havido saído o terceiro disco de estúdio, “In Utero”. Em um vídeo para o memorial fúnebre, sua esposa Courtney Love resumiu: “isto ia acontecer, mas poderia ter acontecido quando ele tivesse 40 anos”.

Durante muito tempo se cogitou a impossibilidade de Cobain em lidar com o sucesso, a fama e o posto de maior banda de Rock naquele momento, minimizando (ou até justificando) o abuso intensivo que o guitarrista fazia da heroína. Porém, o jornalista Charles R. Cross consegue desmitificar a trajetória do Nirvana e de seu líder na biografia “Mais pesado que o céu” (Editora Globo).

O livro é resultado de centenas de entrevistas e do acesso do autor aos diários de Cobain desde a adolescência. É difícil para o autor esconder que ele mesmo é um fã do biografado, mas ao contrário do que pregava um antigo faroeste, entre a lenda e os fatos, Cross prefere descrever o real. Aliás, é por ele que sabemos que Kurt Cobain era, propositalmente, um mentiroso compulsivo nas entrevistas, adornando e exagerando episódios do seu passado.

Quase metade da biografia é dedicada à sua infância e adolescência. O que por um lado torna a narrativa arrastada e chata para quem espera logo para que surja nas páginas o principal expoente do grunge. Por outro, faz todo sentido, já que Cobain morreu aos 27 anos e toda sua carreira musical não preenche uma década. O importante aqui é que o divórcio dos pais deixou profundos impactos na vida do guitarrista, inspirando boa parte do repertório do Nirvana. Ironia das ironias, o roqueiro que destruía amplificadores e guitarras, buscava algo bastante conservador: uma família nuclear e tradicional.

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Também descobrimos que Cobain fazia planos de ter uma banda de sucesso desde a adolescência, demitindo os músicos que não demonstravam comprometimento nas primeiras formações do Nirvana. Assim como, frustrado com o tratamento que recebia na Sub Pop, provocou o rompimento com a gravadora e a assinatura de contrato com a grande Geffen, mesmo selo dos Guns N’ Roses. Ou ainda ligava para a MTV para reclamar que a emissora não passava suficientemente seus clipes.

Evidentemente, o melhor do livro está na origem das músicas e nos bastidores das gravações dos discos. “Nevermind” é basicamente inspirado na separação entre Cobain e uma ex-namorada. O título do maior sucesso do Nirvana, sem que Dave Grohl e Kris Novoselic soubessem, foi retirado de uma pichação de uma amiga desta ex-namorada na parede da sala: “Kurt cheira a Teen Spirit”. No caso, a marca de um desodorante feminino para adolescentes. Jornalista, entrevistados e fãs também concordam: o show no Hollywood Rock no Brasil foi o pior de toda carreira da banda.

Finalmente, Cross narra com detalhes o uso intensivo de heroína e as tentativas fracassadas de reabilitação do músico. Tomando doses cavalares que assustava até mesmo aos traficantes, Cobain afasta-se da banda e da esposa Courtney Love na mesma proporção em que aumenta sua dependência. Em Roma, após o cancelamento da turnê europeia de “In Utero”, Cobain tenta o suicídio pela primeira vez, divulgado como uma “overdose acidental” pela gravadora para a imprensa. Semanas depois, cometeria o suicídio na estufa de sua casa, após fugir novamente da reabilitação.

Ainda que livros e filmes alimentem teorias conspiratórias de assassinato, a reconstituição detalhada dos últimos dias de Cobain, demonstra o quanto a ação do guitarrista foi premeditada. As teorias ficam para o campo das hipóteses, assim como o que teria acontecido com o Nirvana se o seu líder estivesse vivo. Teriam superado “Nevermind” e “In Utero” e desfrutado de uma estável carreira, mesmo que registradas pelos conflitos em tabloides, ou amargariam o fim da onda grunge que levou dezenas de bandas ao ostrascismo?

Por Miguel Stédile 

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