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Loucuras de amor e o mundo dos mortos.

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MONO

Loucuras de amor e o mundo dos mortos.

Nos anos 90, entre banheiras, sabonetes, bundas e o Cumpadi Washington, Gugu dava espaço para o amor.

Parece contraditório falar em amor enquanto dois desconhecidos se engatavam em busca de sabonetes que davam pontos para os homens ou as mulheres.

Mas o fato é que Gugu lançou a “Loucura de Amor”.

Alguém mandava uma carta (sim, na época eram cartas), declarava seu amor e se dispunha a realizar uma loucura para mostrar o tamanho do que sentia.

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As bizarrices iam de chuva de pétalas de rosas sobre o trabalho do marido, cantar em um trio elétrico em frente à casa da mulher e muito mais, frutos da fértil mente aloirada do pai do pintinho amarelinho.

O fato é: é necessário fazer uma “loucura” para declarar seu amor? Não dá pra simplesmente ir até a pessoa e dizer para ela o que você sente?

Dá.

Mas o que movia as pessoas no “Loucura de Amor” era mais que declarar seus sentimentos. Era mostrar isso para todo mundo. Provar para os outros que você ama muito. Aliás, muito mais do que todos os que estão assistindo, já que nenhum deles fez isso nenhuma vez, certo?

Parece estranho? Bom, não é. Se pensar que na época não tinha Facebook nem Orkut, a televisão ainda era a melhor forma de mostrar pra todo mundo que você é melhor que eles.

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Se formos pegar a essência, hoje vemos grandes “Loucuras de Amor” diariamente. Declarações de amor, fotos de rosas ganhas no dia do aniversário, jogos de videogame dados como presente e tudo isso seguido de dezenas de likes, que na cabeça de quem postou, é mais importante do que o Like simples e único que ele ganharia da namorada se simplesmente falasse tudo isso pra ela.

Só que em certo ponto disso, perdemos a mão.

Não é difícil encontrarmos no Facebook mensagens de pessoas lapidando a imagem e condecorando parentes já falecidos, dizendo o quanto aprenderam com eles e das saudades imensas que deixaram.

E eu me pergunto: pra que? Pra quem?

Considerando que o mundo dos mortos e espíritos realmente existe, será que a melhor forma de falar com eles é através do Facebook?

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Estamos fazendo uma espécie de Psicografia Reversa.

Se antes tínhamos um morto falando com um vivo através de um médium, hoje temos um vivo falando com um morto através de uma mídia.

Uma situação que parece ser muito mais para fazer tipo e criar um personagem do que movida por um sentimento real.

Como se fosse preciso provar para os outros que você sente saudade, que sente falta, que gostaria que a pessoa estivesse viva. Como se, mais importante do que ter essa certeza, fosse garantir que os outros a tenham e percebam que você sofre. É como se você devesse dar uma satisfação de tristeza com a perda para compensar os check-ins que você deu em bares e as fotos que você tirou sorridente na sua vida virtual perfeita. Aparentemente, alguns likes são suficientes pra apagar alguma culpa ou ressentimento e deixar você com a imagem positiva.

Afinal, atualmente é mais importante parecer que você sente do que sentir de verdade. E nessas horas, nada melhor do que uma boa mensagem póstuma no facebook que garanta a sua imagem de filho sentido, sobrinho carente ou amigo desolado.

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É a “Loucura de Amor Póstuma”. Que, aliás, foi amplamente praticada no final de semana pela morte do Chaves. Pelo menos ficamos no mesmo canal.

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Diogo Mono. Redator publicitário, tenta ser escritor, será pai de família e continua sendo um observador das coisas do cotidiano. © 2014

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