Meus cem anos

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Meus cem anos

Quando eu fizer cem anos, a primeira reação geral será de surpresa. “Quem diria, fazia pouco exercício, era tão avoado, atravessava a rua lendo, escapou de três atropelamentos. Fora que gostava de uma cangibrina…” Como se vê, quando em fizer cem anos, as pessoas continuarão a falar mal do alheio.

No dia em que eu fizer cem anos, haverá festa com balas de coco, que mandarei trazer de Minas, feitas pelas mãos de Rosana, a última quituteira no mundo a saber como se faz bala de coco branquinha, crocante por fora e puxa por dentro.

Minha mulher, meus dois filhos e meus netos estarão ao meu lado. Pedirão para lhes contar que absurdo era aquele no meu tempo de todo mundo ter carro e ficar uma hora parado no trânsito, ainda por cima poluindo o ar. Um aparelho que lê os estímulos do cérebro e os transforma em ondas sonoras dirá o inexplicável com minha antiga voz, pois a minha original já terá sumido.

Não haverá mais beatle vivo, o Brasil será octocampeão mundial de futebol, as baleias voltarão a procriar na Baía de Guanabara, Coca-Cola vai virar marca de suco de mangaba e o mundo finalmente se renderá à evidência de que pão de queijo é bem melhor que alfajor, quando eu fizer cem anos.

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Surgirá a prova definitiva de que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, e a revelação virá num retrato que descerá do Céu, onde o Altíssimo terá a cara do Wilson Grey.

Nos meus cem anos, quero de presente um tênis branco. Como não vai existir mais tênis branco, vai ser um fuá para arrumar.

Vô, sério que as pessoas fumavam? Acabavam com a própria saúde, viam prazer nisso? Sim, querida. E as bicicletas, não voavam? Não, menino, pedalava-se no chão e isso era apreciado. Verdade que era obrigatório estudar Francês? Prestar exército? As pessoas iam mesmo ao cinema? E esse Vinicius de Moraes, existiu de verdade?

Com cem anos, espero ainda me parecer um pouco com as caricaturas que meu amigo Lollo faz de mim.

Vai ter é muita cerveja com glúten, pastel, empadinha – tudo aquilo que ser celíaco me privou por mais de meia vida. A vingança é um chopp que se toma gelado – frase de gosto duvidoso, mas os cem anos são meus, quem pediu sua opinião? (Fazer cem anos nos dá o direito de ser um pouco malcriados.)

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Quando eu fizer cem anos, ao invés de me lembrar das coisas, vou estar feliz por ter esquecido muitas delas, que esquecer é uma benção, né, não, gentes?

Música vai ter. Vai ter chorinho, choro, muita risada, bolo com cem velas (duzentas, pois serão daquele tipo que acendem de novo), campeonato de botão, vai ter irmão, amigo, vai ter tremoço, torresmo, um bom vinho, vai ter dança, dor nas juntas, vai ter aquele momentinho tristeza de tudo estar acabando, vai ter até pileque – mas calma que também vai ter ambulância a postos.

Até riqueza e dignidade vai ter por todo esse Brasil, quando eu fizer cem anos. O que eu espero que não tenha mais é a Voz do Brasil.

E vai ter eu, como não? E se não for para aproveitar tudo isso, quer saber? Melhor que eu nem esteja mesmo.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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