Migrando para São Paulo

Published

on

Sempre gostei de viajar e não sou dessas pessoas que deixam tudo a cargo das agências de viagem. Tento sempre elaborar roteiros que privilegiem pontos turísticos clássicos, sem abrir mão daqueles lugarzinhos mais remotos que só nativo frequenta. E para essa imersão ser profunda, pesquiso bastante sobre o destino escolhido.

Em geral, as minhas viagens começam 3 meses antes da partida, quando compro a passagem. Ter a passagem comprada significa que a viagem é certa, real e que vai se concretizar. A partir daí, busco todo o tipo de informação em blogs, sites, revistas e também costumo conversar com quem já foi.

Dito isso, gostaria de ressaltar que pra minha mais ambiciosa viagem, não me preparei tanto assim, contrariando tudo que disse acima. Pra essa viagem que me tornou não turista, mas migrante, faltaram os 3 meses de planejamento prévio.

Cheguei em São Paulo em 2012, sem emprego e sem moradia. A minha sorte é que tinha amigos e pude ficar na casa deles. Não precisei ficar em uma hospedaria até as coisas se acertarem. Mas, enquanto visitava o Museu da Imigração, situado entre os bairros do Brás e da Mooca, fiquei pensando em como teria sido essa viagem 100 anos antes.

Advertisement

Há 100 anos atrás, provavelmente eu nunca teria viajado sozinha. Só em caso de extrema necessidade e ainda assim, se fosse muito livre e moderna. Partindo desse princípio, teria que ficar em uma hospedaria até conseguir um trabalho. Meus bens seriam abrigados em um armazém para a higienização e eu seria encaminhada ao setor médico para a vacinação contra doenças típicas da nova cidade. Assim como as bagagens, as minhas roupas também seriam higienizadas. Eu seria encaminhada ao setor de matrícula, onde seria registrada e receberia um cartão que daria direito a um determinado número de refeições. Ao final do dia, seria encaminhada ao alojamento feminino.

O tempo da minha permanência na hospedaria seria de aproximadamente 7 dias e durante esse período, iria à agência de colocação para entrar em contato com os agenciadores. Conseguindo trabalho, receberia dinheiro e comida da hospedaria para a viagem até o local. Provavelmente, pra alguma fazenda de café no interior. E esse teria sido meu primeiro contato com a terra nova. Bem diferente de tudo que vivi em 2012.

A ideia do Museu da Imigração é justamente essa: aproximar os visitantes dessa experiência de ser um imigrante naquela época. E a experiência já começa do lado de fora, pois o museu ocupa parte das edificações da antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás, construída em 1888, para atrair mão de obra para as plantações de café.

Ele é bem lúdico. Há uma sala que reproduz um dormitório, e outra, o refeitório da hospedaria com imagens dos imigrantes sendo transmitidas nas mesas. Para passar a ideia de como era a experiência individual da imigração, um grande móvel de madeira foi instalado cujas gavetas guardam reproduções de cartas escritas pelos imigrantes às suas famílias. Há também uma sequência de vídeos, com eles contando para as lentes como foi chegar em um país com uma cultura tão diferente, além de muitas fotos e objetos da época.

Outra coisa legal do museu é um paredão repleto de sobrenomes estrangeiros de mais de 75 nacionalidades. Não aparecem em ordem alfabética, mas com um pouco de paciência e tempo, é possível encontrar o sobrenome de muitos amigos, cujos avós e bisavós passaram pela hospedaria entre os anos de 1887 a 1978.

Advertisement

A experiência de migrar é sempre marcante. E quem decide se deslocar vive os mais variados sentimentos – a falta, a saudade, a separação, o novo e a descoberta. As vésperas de completar 2 anos de São Paulo, só tenho uma coisa a dizer: valeu a pena.

Museu da Imigração do Estado de São Paulo.

Endereço: Rua Visconde de Parnaíba, 1316 – São Paulo/SP.

Horário: de terça a sábado, das 9h às 17h, e aos domingos das 10h às 17h.

Valor: Gratuito durante os meses de junho e julho.

Advertisement

_____________________________________________________________________________________________________________

Clarissa Sá é carioca. Chegou em São Paulo em 2012 para trampar e acabou por tomar gosto pelas preciosidades que passou a garimpar na Pauliceia. © 2014. Para conhecer suas outras garimpadas, acesse: http://garimpandonapauliceia.wordpress.com

Trending

Sair da versão mobile