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A internet seria um lugar melhor com Gabriel Pillar

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A internet seria um lugar melhor com Gabriel Pillar

O nome de Gabriel Pillar é pouco conhecido fora das fronteiras irredutíveis e gaudérias de Porto Alegre. Certamente, não seria assim, se um acidente fatal não o tivesse levado, aos 22 anos, em 2006.

Não o conheci pessoalmente, ainda que tivéssemos amigos em comum. Porém, a força do seu trabalho e sua capacidade de aglutinar gente tão inovadora quanto ele ao redor, despertaram minha admiração por ele. Mas, principalmente, sempre tive a impressão de que ele estava um passo a frente de todos quando pensava a internet.

Gabriel Pillar foi um dos idealizadores e o administrador do Insanus (http://www.insanus.org/), um portal de blogs criado numa época em que blog não era uma coisa assim tão comum, nem a ideia de um portal dedicada a isso parecia fazer muito sentido ou muito futuro.

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Na prática, foi um incubador de grandes blogs que ainda estão ativa, como o Impedimento (www.impedimento.org), o mais importante veículo sobre futebol sul-americano no Brasil.  Por ali, passaram também a escritora e colunista da Zero Hora Carol Bensimon, a cartunista da Folha Chiquinha (http://chiqsland.uol.com.br/), o blog/coletivo de jornalistas investigativos Nova Corja, escolhido como um dos melhores da década passada pelo Estadão, o escritor Daniel Galera e o multimídia André Czarnobai (que juntos estavam em outro ícone do passado internáutico, o fanzine por email Cardoso On Line).

De quebra, ainda estão hospedadas lá duas das coisas mais bacanamente absurdas: o jogo (http://www.insanus.org/jogo/) – e por via das dúvidas, leia isso aqui (http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Jogo_(jogo_mental)) – e a gravação Basta de Estopa, a tradução nenhum sentido do hino russo (http://bastadeestopa.insanus.org./).

Em uma infeliz profecia, em sua última entrevista, Pillar anunciava, em tom de brincadeira, que o Insanus acabaria em dois meses. Já estava de olho em outras possibilidades, antes mesmo que elas se tornassem tendências. Defendia projetos mais coletivos na rede e estava particularmente interessado no cruzamento entre o mundo físico e virtual, como potencial para novos espaços criativos. Este era o tema da sua monografia de conclusão de curso que não teve tempo para defender.

Nas suas próprias palavras: “Eu acho que isso é futuro. Isso aos poucos começa a migrar pra outros espaços, espaços reais, espaços urbanos. Quando tu começa a ter um cruzamento destes espaços, que é a rede, que é a internet, com o espaço físico e urbano tu passa a ter a possibilidade de criação aí também. Eu acho que tu tem um puta potencial democrático de modificação e criação dos espaços pela população. Não só a wikipedia mas os espaços urbanos. Isso é uma coisa que começa a engatinhar e começa a surgir projetos nessa área e eu acho que é muito interessante este tipo de iniciativa”

O Insanus continua lá, como uma espécie de memorial virtual do próprio Gabriel. Aliás, ali o leitor encontra o belo livro organizado pelos amigos, compilando sua produção textual e fotográfica (http://www.insanus.org/livro_gabriel.pdf).

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Não sei o que ele estaria fazendo hoje com tantas possibilidades que previu, mas não pode vivenciar. Talvez se cansasse da internet e resolvesse se dedicar apenas a fotografia. Pela intensidade com que trabalhava e vivia, acho improvável. Talvez estivesse fazendo dezenas de coisas ao mesmo tempo. Mas acredito que estaria um passo a nossa frente e anos-luz da internet de selfies, memes e trolls. E a internet seria um lugar bem mais legal.

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Miguel Stédile é zagueiro, gremista, historiador e dublê de jornalista. © 2014.

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