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O banco do BRICS é uma pontuação não desprezível

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Foto: Wikimedia

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Ninguém deveria ter mais dúvidas de que as economias do Brasil, da Índia, da Rússia, da China e da África do Sul são destoantes, se consideramos os países de industrialização tardia. Além das dimensões territoriais, o que implica no fato de possuírem riquezas naturais, elas agregam uma população superior a três bilhões de pessoas e um PIB que alcança US$ 16,2 tri, superior ao PIB dos países da Zona do Euro. Além disso, o crescimento médio da produção dessas economias se destaca, quando analisamos o período compreendido entre 2004 e 2012: o crescimento médio da China foi de 10,20%, da Índia de 7,50%, da Rússia de 4,01% e do Brasil de 3,73%. E de quanto foi o crescimento médio do PIB dos EUA, no mesmo período? E o do Japão? E da Alemanha? Todos tiveram crescimento médio em torno de 1%, sendo que os EUA, dentre esses países foi o que apresentou maior indicador, teve crescimento médio de 1,74%. Logo, todas essas economias que formam o BRICS passaram a ser relevantes para a geoeconomia mundial.

Primeiro, é bom que se ressalte que criar um banco não é uma coisa fácil, ainda mais num momento de crise capitalista prolongada como a que vivemos. Entretanto, a criação de um banco do BRICS é uma pontuação não desprezível, neste momento. Em relação à mobilização de recursos, tudo ficou definido em julho deste ano, na reunião de Fortaleza, faltando apenas os trâmites necessários para a constituição de um banco, e imagino que seja algo muito trabalhoso.

O que é relevante é que os países que não fazem parte do “pelotão de ponta” da geoeconomia mundial poderão contar com uma alternativa, pois há uma outra proposta em andamento. Parece ser difícil entender que o credo liberal não é o único possível, e que outras economias encontram melhores resultados em função da adoção de outro tipo de política de desenvolvimento. Não faria sentido criar-se um banco do BRICS para ser apenas mais uma instituição multilateral, como as já existentes. Desse ponto de vista, bem além dos recursos disponíveis, em prol do crescimento e do desenvolvimento econômico e social, o Banco de Desenvolvimento do BRICS deixa claro que há uma outra geoeconomia e geopolítica em andamento.

É evidente que as vantagens que ele poderá oferecer são as taxas de juros diferenciadas e prazos melhores, ainda mais quando nos referimos às instituições bancárias privadas. Mas, sobretudo, uma instituição desse porte agregará, certamente, a experiência que esses países possuem com os seus bancos de desenvolvimento, pois todos possuem bancos de desenvolvimento importantes e decisivos para os projetos nacionais que se encontram em andamento. Por exemplo, não se pode falar de desenvolvimento econômico da China sem se falar do Banco de Desenvolvimento da China (CDB), assim como não se pode falar de desenvolvimento econômico do Brasil sem se falar no BNDES. A história nos ensinou que quase todos os projetos de desenvolvimento nacionais exitosos contaram com recursos criados por instituições bancárias-financeiras, quase sempre estatais. Vamos pensar: se hoje alguém fosse fazer um empreendimento privado e necessitasse de recursos de terceiros, como é o mais usual, recorreria a uma instituição bancária privada ou a um banco de desenvolvimento? Por quê? Porque o pressuposto é de que são necessárias taxas de juros baixos e longo prazo, não? E esta é a lógica das instituições bancárias tradicionais? É claro que não!

Sabemos que o Banco de desenvolvimento do BRICS terá capital inicial de US$ 50 bilhões, ou seja, este é o seu funding de partida, mas um banco de desenvolvimento é lucrativo, tal como é lucrativo o BNDES. Ninguém pense que um banco de desenvolvimento empresta a fundo perdido, não é isto. Essa instituição tem retorno e até pode e deve, em algumas situações, ampliar prazos e subsidiar juros, mas não pode ser confundido em hipótese alguma com uma instituição bancária tradicional. Em suas operações, visa retorno e lucratividade, mas sua perspectiva é o desenvolvimento, o que implica em financiamento de projetos de longo prazo, principalmente os de infraestrutura.

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Podemos considerar que ele se diferencia das atuais instituições multilaterais, primeiro, porque o Banco Mundial hoje tem pouco fôlego, e sua agenda segue a imposta pelos EUA e pelos principais países europeus. Depois, porque as atuais instituições multilaterais bancárias-financeiras, como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BIRD), o Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento, o Banco Europeu de Investimentos, e outras instituições menos importantes, não estão, necessariamente, comprometidas com o desenvolvimento econômico dos países da periferia sistêmica, mas sim com projetos específicos, humanitários, grande parte das vezes, mas nem sempre dispostos a financiar a infraestrutura e a promover o crescimento.

Por Glória Moraes

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