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O candidato

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MONO

O candidato

Morava naquela cidade desde que podia se lembrar. E a cidade também lembrava dele como se já fosse um patrimônio do lugar. Conhecia todo mundo por ali, os vendedores das lojas, os donos das lojas, os compradores das lojas, os bêbados dos bares (dos dois bares!), o gerente do banco, o padre, claro, e até as prostitutas, embora ele nunca tenha usado seus serviços.

Essa, aliás, era sua maior virtude: ele era um exemplo na cidade toda. Ninguém nunca tinha ouvido falar de qualquer tipo de desonestidade, safadeza, mau exemplo ou falta de respeito a quem quer que fosse.

Essa vida simples o enchia de orgulho. Mas com a chegada das eleições, as coisas mudaram. Ele conhecia os candidatos e sabia que nenhum deles faria o que era necessário para a cidade prosperar. E pela primeira vez viu que a cidade precisava mais dele do que ele dela. Decidiu. Seria candidato a prefeito. E sua honestidade seria o caminho para transformar aquele no melhor lugar para se viver no mundo.

Começou conversando com os amigos. A aceitação foi imediata. Passou para os comerciantes, donos de empresas, restaurantes, lanchonetes, estudantes. Para todos dava o caminho mais curto pra que as coisas melhorassem. Os votos iam se somando, o apoio era imenso, onde ele passava as pessoas o aplaudiam e festejavam.

No dia das eleições chegou à urna carregado nos braços da população, comemorou a vitória assim que digitou seu número e saiu sorridente. Já tinha tudo preparado para a posse, discurso da vitória decorado e uma lista gigantesca de agradecimentos.

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Ao final da noite, foi até a praça com sua melhor roupa acompanhar a divulgação dos resultados.

6 votos.

E um silêncio tomou conta da praça. O dele por não entender o que estava acontecendo. O da plateia, por saber exatamente o que tinha ocorrido. Envergonhada, a multidão se desfez. Ele ficou sozinho. O dono do bar foi o único a ir até lá, devidamente prevenido com uma garrafa e um copo.

Não falaram nada… e quando ele ia começar, o dono do bar impediu.

“Isso aí que você tá bebendo faz mal, amigo…. mas é isso que o pessoal gosta”.

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Diogo Mono. Redator publicitário, tenta ser escritor, será pai de família e continua sendo um observador das coisas do cotidiano.
© 2014

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