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O corguinho está seco

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CassioZanata

O corguinho está seco

Estou diante do corguinho da infância. Córrego, para os não íntimos. Um braço de água clara e fria, vindo do açude de cima, hoje seco de dar dó. A região sofre com a pior seca da história. Da minha, pelo menos.

Quantos anos leva uma infância? Sete? Dez? Pode ser impressão, mas acho que antes as infâncias duravam mais. Hoje em dia, a gente conversa com meninos de doze, já tão maduros. As meninas, então, é um susto só. Estão cada vez maiores, mais lindas e exuberantes. Ao contrário do meu corguinho da infância.

Corguinho. Forma que mestre Aurélio consagra em seu dicionário, para alívio de quem, como eu, não saberia chamá-lo por outro nome.
Quando moleques, a gente passava em bando a cavalo, no maior galope, pelas suas águas. A disputa consistia em ver quem jogava mais água no outro. Era uma festa de água e, às vezes, de barro, o que era mais divertido.

Houve uma vez que passei sozinho a cavalo e havia rolinhas bebendo a água do corguinho. Rolinha é bicho bobo. Ao contrário dos outros pássaros que vivem no mato e picam a mula quanto avistam algo estranho a centenas de metros, as rolinhas parecem não perceber a aproximação. Só quando a gente chega muito perto é que elas tomam alguma providência. Então decolam com estardalhaço, e nesse vôo barulhento compensam a falta de atenção, assustando os possíveis predadores.

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Como aconteceu comigo: elas fizeram seu pequeno escândalo, meu cavalo levou susto, empinou e eu fui jogado nas águas do corguinho. Estivessem secas feito hoje, eu teria me machucado tamanho família.

Molhado e humilhado, resolvi ir para a casa, pegar meu estilingue e me vingar das rolinhas. Mas tonto era eu, no caminho esqueci e me distraí com outra coisa. Raiva de menino dura pouco.

Olho para o alto, não falta nuvem de chuva. O céu está cheio delas, carregadas. Falta é a chuva. Por que não cai? Parece que as chuvas desaprenderam a acontecer, agora caem pedindo licença, uns pingos envergonhados, não é aquela lavação de até pouco tempo.

Os meninos que fomos iam adorar economizar água. Com menos banho, por exemplo. Banho era assunto que nos desanimava profundamente, que mal há em ficar com cabelo duro e cheiro de cavalo? Perda de tempo. Por que não deixar para as meninas essa coisa de ficar com a pele limpa e cheirosa?

E a chuva ameaça, ameaça, mas nada de chover no corguinho que era raso e nem isso é mais. Ai, nosso São José, deixe um pouco as bandas do Rio Pardo e vai lá bater um papo com São Pedro, jogue aquele lero de carpinteiro, negocie uma chuva grossa que encha esse corguinho e encharque as lembranças.

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Deixa que gente se vira por aqui. Atentos feito urubus. Estabanados feito rolinhas.

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Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

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