Connect with us

O grande encontro

Published

on

CassioZanata

O grande encontro

Eu comia a fruta do conde com os dedos, boca, nariz, chafurdava no seu creme, quando a campainha tocou. Engraçado que não era o som da campainha de casa, mas as badaladas do carrilhão da sala de dona Ester.

Abri, a garota bonita entrou, sorriu, disse nada, apenas me pegou pela mão e saímos. Consenti. E gostei do verbo assim, intransitivo, que se basta.

Nem deu tempo de lavar as mãos, deviam estar pegajosas da fruta. Esfreguei na calça, vergonha e bandeira de me revelar menino.

De repente já estávamos no metrô. Era o metrô mas não era, era trem mesmo, de vagões largos e poltronas. Ela à minha frente e eu procurando nos seus olhos uma resposta para aquilo, mas eles só olhavam pela janela, que olhava de volta, encantada.

Advertisement

Vi a paisagem de São José, as palmeiras, cupinzeiros, ruas de cebolas, tudo mais lindo sob um metro e meio de neve. E eu, só de camiseta velha – Cannes 95 – e essa calça rasgada no joelho, ainda por cima suja de manga (ué, mas não era de fruta do conde?). Ela vestia um lenço de todas as cores que não existem, que só a deixava mais linda. De que cor eram os olhos? Não saberia dizer, sonho não tem cor, é a realidade.

O bilheteiro se aproximou e lhe mostrei as sementes da fruta do conde (mas não era manga?), que ele aceitou perfeitamente como pagamento. O relógio do vagão marcava 5 e 15 mas logo voltava para 15 e 5. Atravessou o corredor o realejo manco que tocava Cartola, trazendo o periquito que gritava para o trem diminuir, até que parou.

Descemos numa rua simples, de poucas casas e calçada vazia. Caminhamos de mãos dadas, acompanhados por um vira-lata fazendo festa e nos protegendo do touro fugido, dos ciganos, do ganso invocado, do buscapé desgovernado, das aranhas no escuro.

Até que chegamos a uma cerca de arame farpado, dessas que muito atravessei e me rasgou toda a pele, até esse rasgo na calça ela fez, me furou bola de capotão, e agora dividia claramente a vida em dois momentos.

Fez-se o silêncio que antecede as solenidades.

Advertisement

Debaixo da cerca, ela. Enfim. A touceira de sensitivas.

Não como são, mas como imagino que ainda sejam. Procurei graveto em volta, nada, a menina me entregou um lápis engraçado, todo amarelo. Agachei com cerimônia, como se toda a vida tivesse sido preparação. Mosca que zunisse levava croque.

Toquei de leve as sensitivas com o lápis amarelo e as folhas se fecharam com impressionante delicadeza. Ela então me abraçou um tempo maior do que seria prudente e disse tudo o que precisava ser dito: “Né?”

O que houve depois foi exatamente isso que vocês estão pensando agora.

__________________________________________________________________________________________________________
Cássio Zanatta é natural de São José do Rio Pardo, o que explica muita coisa. Escreve crônicas há um bom tempo – convenhamos, já estava na hora de aprender. © 2014.

Advertisement

Continue Reading
Advertisement
Advertisement
Advertisement

Copyright © 2023 The São Paulo Times