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O mundo transparente

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Paulo

O mundo transparente

Em junho de 2006 li um artigo de Wil Harrison na Wired com o titulo WEB 2.0: The End of Privacy (Web 2.0: O fim da privacidade). Foi a primeira vez que li isso colocado assim, de forma direta e contundente. O artigo detalhava as ameaças às liberdades individuais e antevia uma série de problemas que conhecemos excessivamente bem, pelo menos desde os documentos revelados por Edward Snowden através de Glenn Greenwald. Sabemos que não existe lugar onde esconder segredos, e o próprio fato de que a NSA, a mais rica e poderosa organização de espionagem do mundo,  não pôde ocultar os seus deixou isso absolutamente claro.

Curiosamente, o artigo de Harrison também apontava um aspecto interessante e potencialmente positivo para o fim da privacidade: se o indivíduo era ameaçado por essa perda, isso certamente se refletiria de modo semelhante para as corporações, instituições e governos. Todos os governos. Inclusive os governos corruptos, as negociatas, as propinas e desonestidades, as manipulações políticas e econômicas.

Por um instante, talvez porque seja incorrigivelmente otimista; talvez porque eu considere que viver de modo transparente e verdadeiro seja o único que valha a pena; não pude deixar de considerar que, se isso tornaria difícil para  manter segredos que prejudicam milhões de pessoas,  talvez a perda dos segredos individuais não seja um preço tão alto a pagar. Afinal, temos muita facilidade em pensar sempre nas perdas individuais, nas ameaças possíveis às nossas pequenas questões. Mas o que significa, em termos de ganho coletivo, que as organizações tenham cada vez mais dificuldade em manter intenções ocultas?

Significa, por exemplo, que os transgênicos, vendidos como solução para fome no mundo (como campanha publicitária, e sinceramente, quem espera que a verdade venha embalada por campanha publicitária?) sejam hoje vistos com sérias reservas em mais de 65 países e banidos de dezenas. Significa que a espionagem da NSA sobre os cidadãos e governos do mundo vem a público; significa que o envolvimento de políticos em negociatas e favorecimentos é cada vez mais visível e impossível de esconder.

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Toda essa transparência, essa dificuldade em manter em segredo as mais diversas práticas, sejam positivas ou não, tem efeitos imediatos nas vidas de todos, mas para alem destes, tem (e terá) também, efeitos cumulativos; que serão percebidos com o tempo. Ainda é difícil afirmar que a transparência esteja impedindo novos golpes ou negociatas, e é preciso esperar mais tempo para efetivamente descobrir se ela vai se refletir em práticas mais justas. O aspecto que parece mais forte hoje, entretanto, é que as coisas estão cada vez mais visíveis.

Isso tem criado uma indignação, mas também um sentido de que “o ser humano nunca esteve pior”. Ao contrário do que parece, essa afirmação absolutamente não se sustenta; e é fácil entender porque através de um exemplo simples: se você tem uma loja e descobre que está sendo roubado há 30 anos, o fato de descobrir isso, tem algum significado negativo? Absolutamente não. Nada mudou no fato de que você foi roubado antes. Mas pode mudar, na medida em que você toma consciência do roubo. Mas é claro que a primeira reação é negativa, se você não sabia que vinha sendo roubado nos últimos 30 anos. Antes de poder fazer algo a respeito, há uma sensação negativa, ruim, que vem exatamente de tomar consciência do problema. E junto com isso, a possibilidade de fazer algo a respeito. Reconhecer esse mecanismo exige apenas que se abra mão do falso conforto, que se repudie completamente a atitude “ignorância é felicidade”. Até porque, não é: continue ignorante do fato que vinha sendo roubado, e isso poderá lhe custar a própria loja um dia.

Temos aí um fator importante a considerar, que é o papel da mídia, dos meios de comunicação. A grande maioria deles vive da audiência, convertida em receita publicitária. Todos sabemos que o gosto do ser humano pelas tragédias, pelo horror, pelo negativo e a fofoca ajudam a alavancar audiência. E grande parte dos veículos de comunicação utiliza exatamente essa lógica. Como conseqüência, o volume de notícias ruins tende a ser, por óbvia lógica comercial, muito maior que a de boas novas. Isso cria um círculo vicioso que alimenta uma crença da maioria na mesquinhez humana, justamente porque é constantemente exposto ao que o humano tem de pior e mais baixo. Isso me fez lembrar que, alguns dias atrás, recebi um email de um amigo muito querido, que continha um texto do Nelson Rodrigues onde este apontava para uma das muitas expressões mesquinhas do ser humano. Cito aqui parte do que respondi a ele:

“… cabe dizer que tanto você quanto Nélson Rodrigues, de modo algum estão equivocados quando indicam as infinitas expressões da mesquinhez humana. O gênero humano é pródigo nelas, e o próprio estado do planeta que abriga-nos é prova diária disso; destruímos, mesquinhamente, até mesmo o que vai fazer falta aos nossos filhos. Não somos, como espécie, sequer capazes de pensar neles. Sim, isso é o estado dominante de uma espécie dormente, anestesiada, e que pouco uso faz de sua própria capacidade pensante. Tudo verdade. Por isso, meu interesse passa sempre longe do que nosso mundo é hoje; por isso, minha coluna no SPTIMES se chama Novo Mundo.

Porque há um novo ser humano nascendo. Ainda é um movimento pequeno, comparativamente. Mas os dispostos a realizar algo do lado das vanguardas, no início, sempre foram poucos. Em um desses inícios, havia apenas 3 discípulos dispostos a ouvir o Buddha. Em outro deles, havia meramente 12 apóstolos com Jesus, depois mais um, chamado em Damasco. Em outra versão de vanguarda, havia umas poucas dezenas que levavam a sério o que Gandhi propunha, enquanto milhões o consideravam um louco ridículo. Mais adiante ainda nessa estrada de vanguardas, havia uns doidos que continuavam apostando no que dizia Nelson Mandela, mesmo durante os 27 anos que ele esteve na cadeia. E eram poucos os dispostos a falar por ele, apesar de defender algo que interessava a uma imensa maioria.  Assim é, meu amigo, a cruz de ser vanguarda. Apontar o que está adiante, ainda que poucos possam ver. Cada um deles mudou o mundo; mas não o fez em tempo que se conte em dias. Não se muda nada em horas e em dias, nem em meses, quem sabe em anos… Mas quem muda o mundo não o faz por si mesmo. Essa é a primeira mesquinharia que precisa ser largada pela estrada.

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Se me perguntarem se recomendo a experiência de ser vanguarda e apontar para um ponto de luz que meia dúzia pode ver, enquanto milhões ainda vivem na escuridão da noite, eu responderia: se você quer conforto, reconhecimento e glória pessoal, passe longe dessa tarefa! Se quer fazer porque é o que deve ser feito, porque alguém tem de fazê-lo, não importa a que preço e a que conseqüência, seja bem vindo, precisamos de todos que possam ajudar. Não que tenhamos algo em comum com esses seres grandiosos que citei. Nada, exceto talvez um idealismo de quem enxerga um pouco além da curva da estrada. Convém lembrar que Gandhi e Mandela não contavam com milagres para convencer ninguém. Contavam apenas com o milagre que os homens podem operar, eles mesmos, quando conseguem deixar de lado suas diferenças e agir num interesse maior.”

Gratidão.

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Paulo Ferreira é escritor, coach e consultor em desenvolvimento organizacional do bem estar humano; conselheiro e representante do Nikola Tesla Institute em SP. © 2014.

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