O Papa Francisco escolherá líderes rebeldes para a Igreja Católica?

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No próximo mês o Papa Francisco estabelecerá os novos primeiros cardeais do seu papado. Os cardeais compõem o posto mais alto do clero na Igreja e o Colégio Cardinalício será o responsável por designar os sucessores. Enquanto nenhum nome é anunciado, já existe muita especulação quanto às considerações que o Papa Francisco deve levar em conta ao nomear os indicados.

Ideologicamente, os cardeais devem representar a essência da Igreja mundialmente, uma vez que a geografia é sempre um fator crítico. Historicamente, sempre existiu um amplo contingente de cardeais europeus – particularmente italianos – com o hemisfério sul pouco representado. Devido à origem sul-americana de Francisco, ele deve equilibrar o eleitorado nomeando mais cardeais da América do Sul, África ou Ásia.

Há também a questão das prioridades doutrinárias. Nós podemos ter algumas ideias sobre o tipo de futuro da Igreja que Francisco espera formar, ao olharmos para o tipo dos homens os quais ele vai indicar. Eles serão bispos justiceiros sociais ou poderiam estar mais preocupados com as questões culturais, como o aborto, o casamento e a liberdade religiosa?

Contudo, esses tipos de perguntas muitas vezes concentradas no potencial divide a Igreja. O que vimos até agora, no que diz respeito ao estilo de liderança do Papa Francisco, é que ele está muito mais interessado na unidade da Igreja. Ao mesmo tempo, Francisco não se afasta do fato de que o papel da Igreja é passar religiosamente uma filosofia pública, sobre a melhor forma de criar uma sociedade que estabeleça as melhores condições para a liberdade, a felicidade humana e a prosperidade.

Em meu livro lançado recentemente, “Renewal: How a New Generation of Faithful Priests and Bishops is Revitalizing the Catholic Church”(Renovação: Como uma nova geração de sacerdotes fiéis e Bispos está revitalizando a Igreja Católica), o co-autor, Anne Hendershott, e eu examinamos o aumento surpreendente de novos sacerdotes para o sacerdócio católico ao longo dos dez últimos anos. O que talvez seja a maior revelação dos nossos resultados é que este crescimento veio em um momento de ataques sem precedentes sobre os líderes da Igreja e seus ensinamentos.

Assim como ele lembrou os fiéis em sua recente Exortação Apostólica, a Igreja deve sempre rejeitar a pompa de uma “cultura do desperdício”, ainda que em termos de política econômica ou questões cotidianas.

Após a crise dos abusos sexuais, a maioria dos comentaristas se apressou a prever o fim do sacerdócio católico como o conhecíamos. Ao invés disso, ele tornou-se mais atraente. Ao examinar a cultura das dioceses nos Estados Unidos, na qual os líderes da Igreja estão recrutando novos sacerdotes com sucesso, podemos fornecer algumas percepções úteis sobre a maneira que o Papa Francisco considera nomear os futuros líderes da Igreja.

No ano de 1973, JV Downton publicou o trabalho inicial sobre a teoria da liderança transformacional, chamado ‘Rebel Leadership: Commitment and Charisma in the Revolutionary Process’ (Liderança rebelde: Compromisso e Carisma no processo revolucionário). Peter Northouse, que mais tarde viria a escrever um dos livros clássicos sobre liderança empresarial, resumiu a teoria de Downton ao observar que “a liderança transformacional diz respeito às emoções, valores, ética, normas e metas de longo prazo”.

Em um levantamento de dados sobre a liderança das dioceses que estão produzindo o maior número de novas ordenações sacerdotais, descobrimos que quando um bispo se envolve com os seus sacerdotes e os que trabalham em sua diocese para criar uma conexão que aumente o nível de motivação e moralidade, os sacerdotes e os leigos seguem seu exemplo. Ao invés de se afastar do ensinamento da Igreja sobre fé e moral, os líderes transformacionais oferecem uma defesa franca do ensinamento da Igreja sobre todas as questões, independentemente da opinião popular. Ao invés de serem pegos em discordância e confusão, os sacerdotes em potencial almejam clareza e uniformidade ao conhecer o que a Igreja ensina e por quê. Quando seus líderes oferecerem uma resposta firme a esses ensinamentos, os membros irão segui-los.

Em um livro de 2013, ‘Same Call, Different Men’ (Mesmo Chamado, Homens Diferentes), pesquisadores do Centro de Pesquisa Aplicada do Apostolado da Universidade de Georgetown reconheceram “a maior ortodoxia dentre os sacerdotes da coorte da ordenação do milênio”. Esta ortodoxia corresponde com o apoio de seus bispos, com 79 por cento dos sacerdotes com idade inferior a quarenta expressando apoio de seus bispos, em comparação com 52 por cento das pessoas com menos de quarenta anos, em 1993.

Da mesma forma, um estudo psicológico em grande escala de sacerdotes publicados em 2011, pelo Padre Thomas Rossetti, constatou que há grande alegria entre os sacerdotes – muito mais do que quase qualquer outra vocação ou campo de trabalho nos Estados Unidos. Dos entrevistados na pesquisa, 90 por cento concordou com a afirmação “no geral, estou feliz em ser padre” e 80 por cento disse que se fosse dada a oportunidade, eles seguiriam seu chamado ao sacerdócio novamente.

Embora tais respostas pareçam contradizer as normas culturais, o que os líderes da Igreja deveriam prestar atenção, seja no âmbito cardeal ou nas atribuições pastorais locais, é que a Igreja está no seu melhor quando for clara sobre o seu ensino e não comprometer esse compromisso. Downton acreditava que a liderança rebelde focada na capacidade carismática dos líderes transformava o autoconceito de cada seguidor ao vincular a identidade dos seguidores à identidade coletiva da organização.

 Assim, como os cardeais e bispos nomeados para a Igreja nos últimos anos, nós podemos esperar que Francisco continue com esta tendência, selecionando uma nova geração de cardeais que se assemelhem a seu próprio carisma e estilo, ancorado nas verdades eternas e os ensinamentos da Igreja. Esse modelo parece estar funcionando bem, não só para o Papa Francisco, mas para a Igreja Católica e o mundo da mesma maneira.

© 2014, Newsweek.

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