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O que fica na memória.

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MONO

O que fica na memória.

Cavo na areia, quando ela fica molhada, e encontro as lembranças daquele lugar. Não só do lugar, mas daqueles dias.
A falta de culpa pelas mãos sujas de areia, o olho ardendo do mar, que eu limpava no maiô da minha mãe, os castelos, que na época a gente construía e logo desmoronava, mas pelo menos a gente conseguia construir. Ê tempo bom.
Na volta pra casa, era aquela corrida impossível contra o chão quente no pé descalço.
E como lá o tempo passava depressa, logo chegavam os carnavais, quando a gente jogava água nos inocentes dos bondinhos, escondidos atrás do muro baixo. As torneiras ficavam enfeitadas com as pulseiras coloridas das bocas das bixiguinhas que estouravam. Era um tempo em que tinha até água sobrando, veja só.
Quando chovia, o jeito era deitar na rede, escolher um livro e sentir o vento gelado batendo no rosto, naquele balanço que era bem mais devagar que o relógio.
O dia só tinha direito de acabar depois do passeio na beira do mar, com o sol baixando, os tatuzinhos rolando nas ondas, e a gente andando sem pressa, como as conversas sinceras sobre a família, a vida e os mortos. Como os tatuzinhos faziam pra encontrar a família depois daquelas ondas? Talvez seja assunto pra mais uma tarde.
De noite ninguém saía de casa, nem os pernilongos, nem o baralho que era a brincadeira até de madrugada. Uma brincadeira boa, daquelas que, de vez em quando, terminava até em briga.
Às vezes dá saudade de lá, daquela época, em que nada de preocupante durava mais quem uma onda. Ainda hoje dá pra sentir o sabor da água salgada. Que seja das lembranças daquele mar e não de lágrimas.

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Diogo Mono. Redator publicitário, tenta ser escritor, será pai de família e continua sendo um observador das coisas do cotidiano. © 2014

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